A violência verbal dirigida a mulheres jornalistas deixou de ser um problema restrito às redes sociais para se tornar uma ameaça direta à liberdade de imprensa e ao debate democrático. Quando insultos de cunho misógino substituem argumentos, o alvo deixa de ser apenas a profissional atacada: passa a ser o direito da sociedade à informação.
Esse é o alerta do jornalista, professor e escritor Ricardo Viveiros ao comentar as declarações atribuídas ao influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo Filho contra jornalistas da GloboNews e a jornalista Miriam Leitão. Para o autor, as ofensas extrapolam a esfera da crítica política e revelam uma estratégia de intimidação baseada na desqualificação das mulheres pelo simples fato de exercerem o jornalismo.
Segundo Viveiros, expressões ofensivas como "putas" ou "prostitutas" não representam crítica ao trabalho da imprensa, mas manifestações explícitas de misoginia. "Quando uma mulher é reduzida a insultos de natureza sexual, o objetivo deixa de ser o debate de ideias e passa a ser a sua desumanização", afirma.
O jornalista também critica declarações que fazem referência à violência sexual, lembrando que esse tipo de discurso já foi objeto de decisões judiciais no Brasil. Ele recorda o episódio envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e a então deputada Maria do Rosário, ressaltando que o Superior Tribunal de Justiça entendeu que afirmações desse tipo banalizam o estupro ao sugerirem que a violência poderia ser um "merecimento".
Para Viveiros, a repetição dessa retórica não pode ser tratada como simples figura de linguagem. "Ela carrega um peso histórico, jurídico e simbólico que ultrapassa a ofensa individual e agride todas as mulheres."
Ao abordar o caso de Miriam Leitão, o autor destaca que a jornalista representa um símbolo da resistência democrática. Presa e torturada durante a ditadura militar quando ainda estava grávida, sua trajetória faz parte da memória da luta pelos direitos humanos no país.
"Atacar Miriam Leitão com referências que evocam violência contra mulheres significa atingir não apenas uma profissional respeitada, mas também a memória das vítimas da repressão política", observa.
Ricardo Viveiros afirma ainda que episódios semelhantes deixaram de ser exceção. Segundo ele, mulheres jornalistas passaram a ser alvo recorrente de campanhas de ódio e difamação nas redes sociais, independentemente do veículo em que atuam ou de sua linha editorial.
"Não importa onde trabalham. Basta publicarem informações que desagradem determinados grupos para que sejam alvo de ataques coordenados. Não é coincidência. É método", escreve.
Na avaliação do autor, enfraquecer a credibilidade da imprensa por meio da violência verbal interessa apenas àqueles que pretendem substituir fatos por versões, investigação por intimidação e informação por propaganda.
O artigo também destaca o papel das instituições na responsabilização de eventuais ilícitos. Para Viveiros, cabe ao Ministério Público investigar, ao Judiciário julgar e assegurar o devido processo legal sempre que houver indícios de crime.
"Responsabilização não é censura. Liberdade de expressão exige responsabilidade. O direito à opinião jamais significou licença para ofender, humilhar ou estimular práticas discriminatórias", defende.
Ao concluir, o jornalista afirma que combater a misoginia significa proteger princípios fundamentais da democracia, entre eles a liberdade de imprensa, o respeito às mulheres e a convivência baseada no diálogo.
"Não podemos normalizar o discurso de ódio. É preciso denunciar, investigar, julgar e punir, quando a lei assim determinar. O silêncio diante da violência apenas fortalece a intolerância e enfraquece os pilares do Estado Democrático de Direito", conclui.
Fonte: Artigo de opinião de Ricardo Viveiros
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