Mike Pence visita o abrigo Casa de Acolhida Santa Catarina, onde estão imigrantes venezuelanos em Manaus Foto: Sandro Pereira / Agência O Globo
O prefeito de Manaus, Arthur Neto, esclareceu na tarde desta quarta-feira, em uma rede social, o fato de não ter recebido o vice-presidente americano, Mike Pence, que visitou nesta quarta-feira um abrigo para imigrantes venezuelanos na capital amazonense. Inicialmente, a justificativa era um conflito de agendas. Mas, à tarde, Arthur manifestou no Twitter a preocupação com a presença do grande aparato militar que acompanhava a comitiva americana e destacou ainda o trabalho humanitário com os imigrantes venezuelanos feito pelas autoridades municipais.
“Respeite a soberania do meu país e o brio do povo amazonense. Não aceito a intervenção militar, nem por brincadeira. Por favor, volte para a sua casa. O Acnur reconheceu o trabalho de acolhimento aos venezuelanos em Manaus. Não tente me ensinar a ser solidário. Os mexicanos podem falar sobre o tratamento que o seu país dá a eles”, declarou Arthur, do PSDB, em uma postagem, referindo-se ao Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).
O prefeito esclareceu que não iria se encontrar com Pence devido às exigências feitas pelo protocolo americano. Os representantes exigiram que as autoridades locais esperassem com duas horas de antecedência pela chegada de Mike Pence. Além disso, Arthur não poderia estar acompanhado da primeira-dama da capital amazonense, Elisabeth Valeiko, que também é presidente do Fundo Manaus Solidária.
PROMESSA DE APOIO
O vice dos EUA chegou na manhã desta quarta-feira acompanhado pela mulher, Karen Pence. Em visita a Manaus ele voltou a criticar o governo de Nicolás Maduro na Venezuela e afirmou que Washington vai trabalhar para restaurar a “liberdade e democracia” no país. Pence visitou um abrigo administrado pela Cáritas Arquidiocesana de Manaus que abriga imigrantes venezuelanos que chegaram ao Amazonas após o processo de interiorização do Governo Federal. Atualmente, o abrigo conta com cerca de 83 venezuelanos, segundo frei Alex, coordenador-geral .
O vice-presidente americano conheceu alguns abrigados e também as ações humanitárias que garantem assistência aos imigrantes promovidas pela Arquidiocese de Manaus. Sem entrar em detalhes sobre a política para conter o fluxo migratório nos Estado Unidos, Pence declarou que os venezuelanos precisam ter liberdade em sua terra.
— As pessoas na Venezuela precisam dessa liberdade. Muitos vão para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor. Eles vêm aqui, ao Brasil, para viver, para sobreviver, mas precisam ter liberdade na própria terra — disse Pence. — A Venezuela uma vez já foi próspera, mas com Nicolás Maduro se tornou um dos países mais pobres. É uma liderança falha a do presidente.
Durante um pronunciamento para venezuelanos, ele afirmou que as pessoas no país não têm comida e nem medicamentos e são forçadas a irem para outros países para terem acesso a direitos básicos.
— Eu vim aqui hoje, estar com vocês, porque nós ouvimos sobre o impacto do governo na vida da Venezuela.
O vice americano disse que muitos seguem para os EUA para que os filhos possam ir à escola ou ter medicamentos, da mesma forma que vêm ao Brasil em busca de oportunidades. Segundo ele, “a liberdade vai vencer no final”.
— Liberdade e democracia vão retornar para a Venezuela. Eu tenho fé no povo venezuelano, após as conversas que tivemos com vocês, pela força que nós vimos. Os Estados Unidos continuarão dando apoio até que vocês tenham a liberdade de volta.
LONGA JORNADA
A esperança move o coração da jovem venezuelana Khamile Hhalil, de 17 anos. Segundo Khamile, a vida no país é tão difícil que não houve outra escolha para ela, a mãe, um irmão e a avó a não ser virem para o Brasil.
— A vinda para cá foi muito ruim, não tínhamos dinheiro, chegamos só com R$ 300 para pagar um aluguel. Ficamos na casa de uns amigos venezuelanos, mas depois eles pediram para deixarmos o local. Como a casa era próxima do abrigo, resolvi falar com o frei para começarmos a viver aqui — contou.
A família chegou em Manaus em novembro do ano passado vinda de Caracas, e após passar uma temporada em Boa Vista, capital de Roraima.
Segundo o frei Alex, no abrigo são oferecidos, além do acolhimento, o acesso à educação por meio de oficinas, saúde e alimentação.
— Encaminhamos as crianças para terem acesso às escolas da rede pública estadual e municipal e damos todo o apoio para as famílias poderem permanecer no abrigo.
Além do abrigo da Cáritas Arquidiocesana, a Prefeitura de Manaus possui ainda mais dois centros onde atualmente estão 200 indígenas venezuelanos da etinia Warao.
Uma das coordenadoras administrativas do abrigo visitado por Pence, a brasileira Valdenira Trovão Sena, afirmou que é preciso ajudar os venezuelanos.
— Participei também para protestar contra governo venezuelano. Essas pessoas precisam de ajuda e é bom ver que um país desenvolvido possa auxiliar — alegou ela. — Ajudo com doações para os venezuelanos aqui no abrigo e também em outros trabalhos administrativos.
NOS ABRIGOS E NAS RUAS
A Prefeitura de Manaus atualmente administra dois abrigos, sendo responsável pela estada de 200 indígenas venezuelanos da etnia Warao. Um desses espaços chegou a receber 300 imigrantes. Nos abrigos, os venezuelanos têm acesso a políticas públicas, como atendimentos de saúde e educação.
Apesar das ações voltadas para os venezuelanos, um grupo de imigrantes ainda permanece na rodoviária de Manaus. O local chegou a receber desde o ano passado uma grande quantidade de imigrantes, que viviam em condições precárias. Em maio de 2017, o estado registrou 500 venezuelanos morando no Centro da capital, nas proximidades da rodoviária e na Zona Leste. A Prefeitura anunciou que planeja ações de apoio aos imigrantes que estão instalados na rodoviária.
No Dia Mundial do Refugiado, comemorado no último dia 20, o porta-voz do Acnur, no Brasil, Luiz Fernando Godinho, afirmou que o acolhimento de venezuelanos na capital demonstra a solidariedade amazonense.
No ano passado, 400 indígenas da Venezuela foram acolhidos em abrigos, de acordo com os dados da Semmasdh. Conforme o porta-voz da agência da Organizações das Nações Unidas ( ONU), a solidariedade e mobilização do município “já são históricas”.
O Globo
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