quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Conheça a trajetória do casal humilde que fundou a maior rede de sorveterias de Fortaleza Em meio à moda do sorvete gourmet, a 50 Sabores persiste no mercado há 40 anos, mantendo a essência do início da trajetória da sorveteria

De longe, avisto uma mulher sentada em um banco sozinha. Vestida de forma elegante, mas bem simples, ela espera pacientemente pelo horário marcado. São 17h, como combinado, e ela sorri. “Sou britânica com minha agenda. Não gosto de esperar, nem que me esperem”.
Para os que passam na rua, ela é uma anônima. Trata-se de uma mulher de 64 anos comum. Para os funcionários da loja, ela é uma mãe, uma grande gestora. Para mim, que a entrevisto, ela é Neusa Vasconcelos, dona da sorveteria 50 Sabores, referência em Fortaleza.
A princípio, a história que seria contada era de seu ex-marido, falecido em 1988, criador do empreendimento. Ao entrar em uma das lojas, há sempre uma imagem dele com uma dedicatória. O cearense Raimundo Vasconcelos, conhecido como Raimundinho, não viu a marca se expandir, mas acreditou nisso ainda em 1975, quando teve sua primeira filial.
Entretanto, o clichê “por trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher” se concretiza na vida de Raimundinho. Dona Neusa é a viúva que levou a marca ao patamar que atualmente se encontra com a ajuda do filho Simão Vasconcelos. É com o suor de seu esforço e com a habilidade de driblar a dor da perda do homem que ama que ela administrou a sorveteria e a transformou em uma empresa.
Placa de homenagem ao Raimundinho é encontrada em todas as lojas (FOTO: Hayanne Narlla/ Tribuna do Ceará)
Placa de homenagem ao Raimundinho é encontrada em todas as lojas (FOTO: Hayanne Narlla/ Tribuna do Ceará)
Origens
Nascido em Santana do Acaraú, a 228 quilômetros de Fortaleza, Raimundinho foi estudar ainda na adolescência em Parnaíba, no Piauí. Lá conheceu Neusa. Aos 20 anos, com três meses de namoro, casaram-se. Parece que já sabiam que o destino os separariam em breve. Ele quebrava o galho como comerciante, office boy, taxista. Ela era manicure.
Tiveram um único filho e se mudaram para Belém, no Pará. Após passarem um pouco de dificuldades, Raimundinho recebeu uma proposta da irmã que morava em Fortaleza. Ele viria trabalhar na sorveteria do marido para, no futuro, se tornarem sócios. Raimundinho topou e dona Neusa apoiou.
Em menos de um ano sendo funcionário da sorveteria Tropical, localizada na Avenida Santos Dumont, o casal abriu a primeira sorveteria, ainda em sociedade, na Avenida Treze de Maio. Raimundinho não chegou a ser dono das oito lojas existentes, mas administrou três. Criou os 50 sabores e até um pouquinho mais. Porém, em 1988, faleceu antes de realizar um antigo sonho: voltar para a cidade natal e morar em uma fazenda.
Descobriu que tinha câncer no intestino três anos antes do falecimento. Naquele tempo, a doença era misteriosa e não existia um tratamento adequado. O médico chegou a dar 120 dias, mas ele viveu 975 a mais.
Recomeço
Simão e Neusa administram juntos a marca 50 Sabores (FOTO: Arquivo pessoal)
Simão e Neusa administram juntos a marca 50 Sabores (FOTO: Arquivo pessoal)
Quando o marido faleceu, Dona Neusa tinha 38 anos e um filho de 16. Na época, eles já tinham três lojas. Entre viver o luto ou superar a dor, a viúva escolheu a segunda opção. Um dia após o sepultamento já estava trabalhando. Por coincidência, era o Dia dos Finados.
Adicionou o nome 50 Sabores ao lado de Tropical, pois queria ter uma marca somente sua. Acordou todos os dias cedo para comprar frutas e trabalhar em novos sabores. Teve receio de criar o filho sozinha, mas enfrentou os desafios e hoje sente orgulho de Simão. E muito.
No fim da década de 1990, o filho se junta à dona Neusa na administração das sorveterias. O nome, então, é mudado definitivamente e as três pequenas sorveterias se transformam em uma empresa com oito lojas e mais de 100 funcionários ou “colaboradores”, como dona Neusa gosta de chamar.
Aprendizado

Mesmo com 27 anos da morte do marido, a viúva fala com ele todos os dias. É uma espécie da anjo da guarda. Dona Neusa casou de novo, mas continua acordando bem cedo e indo trabalhar todos os dias, visitando todas as lojas, além da fábrica. É madrinha de grande parte dos filhos dos colaboradores. Faz questão de conhecer a família de todos e tratá-los como amigos.
Depois da perda do marido, escutou muita opinião negativa sobre prosseguir no trabalho. Mas mostrou para todos que torciam contra que foi capaz de vencer. Acredita que a humildade e a força de vontade foram os combustíveis para garantir o sucesso, mas ressalta que é necessário ter um pouco de medo. Só um pouquinho para saber que existe um limite em tudo na vida.
É fã de sorvete de frutas, principalmente de açaí. Não conquistou todos os sonhos, mas pelo menos os principais: o de criar o filho e o de levar a sorveteria para outro patamar. Bingo!
Dona Neusa mantém uma relação de amizade com os funcionários, que acabam trabalhando por anos na empresa (FOTO: Hayanne Narlla/ Tribuna do Ceará)
Dona Neusa mantém amizade com funcionários, que acabam trabalhando por anos na empresa (FOTO: Hayanne Narlla/ Tribuna do Ceará)

2 comentários:

  1. Muito triste pelo falecimento de minha prima, Neusa Vasconcelos. Gostava de conversar com ela pelo WhatsApp. Há anos que não nos víamos pessoalmente, mas sempre conversávamos como se nos visse todos os dias. Descane em paz, minha prima. Você deixou um legado.

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  2. Com profundo pesar soube da partida da minha grande amiga Neusa Vasconcelos que Deus tenha recebida na nova morada.Meus sentimentos Simão. Deus te ilumine e conforte.

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