Em 2019, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra completa 35 anos de existência – 30 deles no Rio Grande do Norte – em meio a uma estagnação da reforma agrária no Estado e incertezas em meio ao cenário político nacional. Após o ‘boom’ da criação de novos assentamentos na década de 1990, o número de terras declaradas como de interesse social para fins da reforma agrária reduziu-se drasticamente no último período, com um total de dois assentamentos criados ao longo dos últimos cinco anos. “O corte nos recursos vem dificultando cada vez mais a criação de novos assentamentos”, afirma o superintendente do Incra no RN, José Leonardo Guedes.
Atualmente, são 19.814 famílias assentadas no RN, de acordo com o Incra. Elas estão distribuídas em 295 assentamentos, grande parte deles com presença do MST. “O MST começou aqui pelo assentamento Marajós, em João Câmara. Hoje, lá vivem cerca de 50 famílias. Quando começou, eram cerca de 150. Juntou muita gente, em parte pela novidade, em parte pela incerteza e pelo medo do que poderia acontecer”, conta Hildebrando Silva.
Aos 32 anos, Hildebrando é um dos porta-vozes do Movimento no Estado. Sua história, conta, é indissociável da história do MST: sua família foi uma das primeiras a se unir ao Movimento no Estado, pela ligação próxima ao movimento sindical, no município de Bento Fernandes. “Toda minha formação, política e universitária, se deu através do MST”, relata.
Hoje, formado em comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC), é um dos dirigentes do movimento, que inicia 2019 com novas preocupações: após 12 anos de governos do Partido dos Trabalhadores (PT), que mantiveram abertas as linhas de diálogo, o presidente Jair Bolsonaro já afirmou que não pretende dialogar com o movimento, que classifica como “terrorista”.
“Quem acredita que somos terroristas não nos conhece”, afirma Hildebrando. Na sala principal do Centro de Ensino e Formação Patativa do Assaré, em Ceará-Mirim, onde ele concedeu entrevista à TRIBUNA DO NORTE, é possível ver duas placas de formatura em uma parede. A primeira, da turma Chico Mendes, de Controle Ambiental, datada do ano de 2008.
A segunda, de 2007, traz a 1ª Turma de Magistério da Terra Paulo Freire. Os nomes apenas reforçam o abismo que separa o MST do atual governo: Paulo Freire é alvo de críticas constantes do presidente Jair Bolsonaro, que já afirmou que pretende abolir os ensinamentos do pedagogo e filósofo brasileiro das escolas. A posição do presidente em relação ao Movimento, de acordo com Hildebrando, é preocupante, mas não indica que o MST vai reduzir suas atividades nos próximos anos.
Tribuna do Norte
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