POR MARCELO DE MORAES / BR POLÍTICO
A um ano da disputa das eleições municipais, o cenário que se desenha é bem diferente do que ocorreu na eleição presidencial passada, quando o voto conservador e antipetista se somou para levar Jair Bolsonaro ao Planalto. Nove meses depois de o presidente subir a rampa do Planalto, já não existe essa “aliança política”, formada pelos grupos de direita e centro-direita. Na verdade, existem sérias divergências entre essas alas políticas, apontando para uma fragmentação na disputa pelo voto conservador na eleição municipal.
No campo oposto, a história não é diferente. A derrota para Bolsonaro tampouco serviu para unificar os partidos de esquerda, que preferem buscar seus interesses regionais, em vez de tentar construir um projeto nacional.
Mesmo com toda essa divisão, existe uma grande expectativa pelo desempenho dos candidatos do PSL, partido do presidente, na disputa pelas principais capitais. Na eleição de 2016, o partido sequer estava no mapa eleitoral. Agora, tenta reviver o sucesso da campanha de Bolsonaro. O problema é que o cenário do ano passado já não existe. À frente do governo, Bolsonaro já acumula desgaste político significativo. O presidente também ja brigou com vários dos aliados que estiveram no seu palanque. Além disso, o PSL elegeu uma bancada parlamentar muito grande, no Congresso e nas Assembleias estaduais. Por conta disso, o partido vive um período de enorme ebulição interna, com muitos candidatos para poucas vagas. E, claro, com brigas demais.
Como presidente, Bolsonaro sabe que as eleições municipais podem ampliar a capilaridade da sua força eleitoral, especialmente se aliados vencerem nas maiores cidades. O problema é que já está muito claro quem realmente é aliado do presidente e se isso traz ou tira votos.
Em São Paulo, maior colégio eleitoral do País, o PSL ainda não decidiu quem lançará como candidato. Pior: o partido enfrenta um desgastante processo de escolha. A deputada federal Joice Hasselmann quer concorrer, mas tem seu nome contestado por alas mais próximas à família Bolsonaro, que a consideram muito ligada ao governador João Doria (PSDB), em quem enxergam um futuro adversário para a reeleição do presidente. O deputado estadual Gil Diniz também deseja ser indicado. Nessa briga, Joice pode até mudar de partido para concorrer.
Sempre é importante lembrar que o presidente estadual do PSL é o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente. Ao mesmo tempo em que tem o controle do partido no Estado, o que o torna protagonista no processo de escolha das candidaturas em todas as prefeituras de São Paulo, seu foco é o de se tornar embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Se o seu nome for aprovado, terá de mudar obrigatoriamente do País e deixar o comando da sigla. Ou seja, o cenário interno do PSL paulista pode mudar completamente nos próximos meses.
São Paulo é um caso exemplar de como os conservadores já espirraram para direções diferentes depois da votação nacional. João Doria, que fez sua campanha no segundo turno pregando o voto “Bolsodoria”, colando na popularidade do futuro presidente, já está distante do PSL. Seu candidato será o prefeito Bruno Covas (PSDB), que era seu vice na eleição passada e busca um novo mandato. Doria e Bolsonaro calculam que serão adversários em 2022 e não há mais jeito de repetir a aliança passada. Resta saber para qual lado vão pender os eleitores paulistanos que deram seus votos para Bolsonaro.
Já o voto evangélico, outro setor fundamental para a vitória de Bolsonaro, tenta manter seu principal enclave político, o Rio de Janeiro, onde o bispo Marcello Crivella (Republicanos) busca a reeleição. E, claro, o PSL também tem pretensões de vencer na cidade onde a família Bolsonaro construiu sua trajetória política, apresentando candidatura própria. Assim como em São Paulo, outro filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro, dá as cartas no partido.
Para embaralhar ainda mais o cenário, o PSDB prepara a candidatura de Mariana Ribas, ex-secretária de Cultura de Crivella. Mariana teve seu nome lançado no sábado em evento com participação do próprio João Doria, como parte do movimento de fortalecimento do “novo PSDB”. A presença do ex-prefeito da cidade Eduardo Paes, cotado para ser candidato do DEM, aumentou a especulação sobre a possibilidade de uma candidatura unificada dos dois partidos. Até porque ainda se espera uma definição sobre o que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, pretende fazer na sucessão local. Com o peso político nacional que tem hoje, caberá a Maia bater o martelo sobre qual será o rumo do DEM na disputa pela capital.
E, como cereja do bolo da fragmentação no Rio dos grupos que apoiaram Bolsonaro, também estava lá no evento de lançamento da candidatura de Mariana o ex-ministro Gustavo Bebianno, defenestrado do primeiro escalão num dos primeiros movimentos de expurgos internos que se tornaram uma das marcas do novo governo. Quem também vai apoiar Mariana é Paulo Marinho, um dos principais apoiadores de Bolsonaro e que rompeu com o presidente e se filiou ao PSDB, do qual é hoje o presidente estadual. Marinho é suplente de Flávio Bolsonaro no Senado.
Nesse caldeirão conservador em ebulição do Rio, ainda será preciso ver o movimento que tomará o PSC, que consegue abrigar o governador Wilson Witzel e o vereador Carlos Bolsonaro, outro dos filhos do presidente. Não custa recordar que Flávio Bolsonaro acabou de tentar comandar uma debandada do PSL do governo de Witzel, irritado com a ideia do ex-aliado de disputar em 2022 contra seu pai. E, pior, corre o risco de ver a ação frustrada já que os peesselistas do Rio não querem abandonar os cargos que Witzel lhes deu.
Se a divisão é inevitável, os conservadores podem, pelo menos, se consolar em saber que os partidos de esquerda não estão em situação melhor. Além da divisão, os partidos de esquerda ainda temem pela repetição do forte voto antipetista, um fator importante na disputa municipal de 2016 e na nacional de 2018.
E a tentativa de descolar desse peso petista acaba empurrando a esquerda para candidaturas independentes. PDT, PSB e PSOL, entre outros, querem fortalecer uma imagem mais distanciada do PT, embora isso pareça ser difícil de consolidar tão rapidamente a ponto de fazer diferença na votação do próximo ano.
Nos Estados do Nordeste, a esquerda tem ótimas chances de repetir o sucesso já obtido pelos governadores desse grupo. A região acabou se transformando quase num enclave antibolsonarista no País. Mas, nas grandes cidades do Sudeste e do Sul, a rejeição aos partidos de esquerda ainda é um obstáculo. Como nessas regiões estão concentrados os maiores colégios eleitorais do Brasil, vencer seria um avanço político importante no processo de construção de uma candidatura nacional para 2020.
Dois nomes da esquerda podem se destacar nesse processo. O deputado federal Marcelo Freixo, do PSOL, é uma força na disputa do Rio. E o ex-governador de São Paulo Márcio França, do PSB, pode contar com o recall da eleição passada para surpreender na capital paulista.
É importante ressaltar que, embora seja a maior legenda de esquerda do País e tenha colocado Fernando Haddad no segundo turno contra Bolsonaro, o PT deve enfrentar muitas dificuldades nas disputas pelas maiores cidades do Sudeste. Em São Paulo, ainda falta definição sobre o lançamento de candidatura própria e existe a incerteza sobre a viabilidade eleitoral de vencer a disputa. Trata-se de um cenário que mostra como o antipetismo se tornou uma força poderosa em São Paulo, o que ficou claro na derrota que Haddad sofreu na campanha pela reeleição para a prefeitura paulistana em 2016.
Fonte: Blog do BG
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