Por Murilo Marinho de Souza*
A grande novidade dos conflitos na Ucrânia não são os aviões, tanques, mísseis nem granadas. Nem tampouco os milhares de mortos nem os refugiados.
Por ser um dos confrontos de maiores proporções mundiais desde a guerra fria, é o primeiro onde as redes sociais e a internet são peças fundamentais no tabuleiro do jogo bélico e na intercomunicação entre tropas, população, governos e familiares.
Estratégias de dissiminação de informações falsas de ambos os lados, cada uma com os seus interesses e estratégias, ficou mais evidente do que nunca.
Não é a toa que, em vez de tentar cortar a energia das cidades, desta vez a Russia atacou as instalações de telecomunicações, deixando a Ucrânia às "escuras" e sem internet.
O bilionário americano Elon Musk, dono da automobilística Tesla, das espaçonaves Space X e dos satélites Starlink, numa jogada também de autopromoção, alimentou a Ucrânia com internet via satélite redirecionando suas máquinas que orbitam a Terra para lá.
O grupo de Hackers Anonymous declarou guerra à Russia e invadiu diversas TVs, órgãos estatais e rádios, alterando as suas programações com conteúdos que seriam "a verdade" sobre a guerra.
O Google, Youtube e Facebook restringiram anúncios do governo russo em suas redes. Em retaliação, o próprio governo russo bloqueou parte do Facebook e do Twitter em seu território, com acusações de censura.
O aplicativo russo de mensagens Telegram, que não faz parte deste rol de empresas ocidentais nesta guerra digital, é peça fundamental na defensiva russa. O Telegram é um dos alvos do Tribunal Superior Eleitoral que promete banir o App das eleições presidenciais deste ano no Brasil.
Do lado econômico, e de forma inédita estão tentando banir os bancos russos do sistema SWIFT, que é por onde se transferem valores internacionalmente, eliminando assim fornecedores russos do jogo internacional. As transferências internacionais antigamente feitas através de ordens de pagamento cheias de extensos formulários e que demoravam dias para compensar, hoje são via SWIFT em segundos. A saída deste sistema praticamente restringe o banco a transferir entre as suas próprias agências.
Não sou contra as sanções à Russia nem a favor da guerra.
Mas seria papel das empresas privadas de tecnologia e que prestam serviços para todo o mundo tomar uma posição sobre conflitos bélicos? Ou dizer o que é ou não informação falsa dentro de uma guerra?
É correto usar o sistema bancário em forma de retaliação de guerra?
Ou mesmo usar o "espaço aéreo orbital" da terra de forma privada, seja em qual interesse for?
Neste contexto a China pode não estar errada em ter o seu próprio Google (Baidoo), o seu próprio Facebook e as suas próprias redes sociais que não sirvam a interesses ocidentais.
São coisas que precisam começar a ser pensadas, regulamentadas e discutidas pelos países.
*Publicado no jornal O Poder
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