sexta-feira, 29 de abril de 2016

Uma estranha derrota

É estranha a derrota que o PT está prestes a colher. Enquanto esperamos pelo Senado, as renitentes expectativas de que o governo fará um último movimento vão ruindo. Se, como dizem, há um golpe em curso, não seria o caso de denunciá-lo internacionalmente? Então por que a própria Dilma não o fez quando teve o microfone e as atenções na Assembleia da ONU na última semana? E os movimentos sociais e centrais sindicais, não deveriam enfrentar o golpe com suas melhores armas? A derrota é estranha, mas não é menos surpreendente a forma como se consuma.
O PT chegou ao governo com grande prestígio. Lula fez um primeiro mandato bastante discreto. Em meio à retração da economia mundial, acusava a herança maldita de FHC. Por pouco não teve a ameaça do impeachment na crise do mensalão. A duras penas se reelegeu em 2006. Os ventos da economia mudaram no segundo mandato, favorecendo a expansão dos programas sociais e uma melhor distribuição de renda. Os sindicatos e movimentos sociais foram esvaziados das suas funções, com a maior parte dos seus dirigentes convertidos em vetustos governistas. A oposição burguesa foi quase aniquilada pelo fisiologismo e a oposição de esquerda acumulou suas próprias derrotas.
No segundo mandato de Lula a popularidade foi alavancada e o lulismo se deu ao luxo de optar por uma gerente ao invés de uma governante. Dilma deveria cumprir o papel de Dutra entre os dois governos de Getúlio. Então o que era uma "marolinha" em 2008 ganhou a força de um tsunami. Junho de 2013 anunciou o fim de um ciclo e o lulismo tinha data para acabar, só não se sabia quem seriam os coveiros.
Nessa altura há poucas dúvidas sobre os vitoriosos. O triste espetáculo da votação do impeachment vaticinou o destino do lulismo. Assistimos às palavras de Bolsonaro e, atônitos, lembramos Walter Benjamin, que dizia: "Se o inimigo vencer, nem mesmo os mortos estarão a salvo dele". O PT deveria pedir desculpas aos trabalhadores. E nossos mortos mereciam respeito.


 Carlos Zacarias de Sena Júnior | Doutor em história, professor da Ufba | zacasenajr@uol.com.br

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