É estranha a derrota que o PT está prestes a colher. Enquanto esperamos
pelo Senado, as renitentes expectativas de que o governo fará um último
movimento vão ruindo. Se, como dizem, há um golpe em curso, não seria o
caso de denunciá-lo internacionalmente? Então por que a própria Dilma
não o fez quando teve o microfone e as atenções na Assembleia da ONU na
última semana? E os movimentos sociais e centrais sindicais, não
deveriam enfrentar o golpe com suas melhores armas? A derrota é
estranha, mas não é menos surpreendente a forma como se consuma.
O PT chegou ao governo com grande prestígio. Lula fez um primeiro
mandato bastante discreto. Em meio à retração da economia mundial,
acusava a herança maldita de FHC. Por pouco não teve a ameaça do
impeachment na crise do mensalão. A duras penas se reelegeu em 2006. Os
ventos da economia mudaram no segundo mandato, favorecendo a expansão
dos programas sociais e uma melhor distribuição de renda. Os sindicatos e
movimentos sociais foram esvaziados das suas funções, com a maior parte
dos seus dirigentes convertidos em vetustos governistas. A oposição
burguesa foi quase aniquilada pelo fisiologismo e a oposição de esquerda
acumulou suas próprias derrotas.
No segundo mandato de Lula a popularidade foi alavancada e o lulismo se
deu ao luxo de optar por uma gerente ao invés de uma governante. Dilma
deveria cumprir o papel de Dutra entre os dois governos de Getúlio.
Então o que era uma "marolinha" em 2008 ganhou a força de um tsunami.
Junho de 2013 anunciou o fim de um ciclo e o lulismo tinha data para
acabar, só não se sabia quem seriam os coveiros.
Nessa altura há poucas dúvidas sobre os vitoriosos. O triste espetáculo
da votação do impeachment vaticinou o destino do lulismo. Assistimos às
palavras de Bolsonaro e, atônitos, lembramos Walter Benjamin, que
dizia: "Se o inimigo vencer, nem mesmo os mortos estarão a salvo dele". O
PT deveria pedir desculpas aos trabalhadores. E nossos mortos mereciam
respeito.
Carlos Zacarias de Sena Júnior | Doutor em história, professor da Ufba | zacasenajr@uol.com.br
sexta-feira, 29 de abril de 2016
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