domingo, 18 de outubro de 2026

Lula e Bolsonaro: a polarização que alimenta os próprios adversários

A crise de credibilidade do governo Lula fortalece o bolsonarismo, enquanto os questionamentos sobre a trajetória política de seus representantes expõem os limites de uma disputa movida pela rejeição ao adversário.

Lula enfrenta dificuldades para se impor politicamente diante de um adversário cujo campo político também carrega uma série de controvérsias. A falta de rigor ético atribuída ao presidente, a seu entorno familiar e a aliados, somada às acusações de ganância e autoritarismo dirigidas a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) vistos como próximos do governo, alimenta a percepção de que setores da esquerda, já distantes da realidade de boa parte da população, perderam a capacidade de compreender as necessidades concretas do povo brasileiro.

Nesse cenário, o presidente se vê obrigado a disputar espaço com um candidato cuja trajetória política também é marcada por episódios controversos e questionamentos que merecem escrutínio público.

Entre os pontos levantados por críticos do bolsonarismo estão a ascensão política à sombra do pai; relatos sobre despesas familiares pagas em dinheiro vivo por um operador que recolhia parte dos salários de assessores; homenagens a figuras apontadas como integrantes da milícia e envolvidas em atividades criminosas; e a contratação de familiares dessas pessoas para cargos de gabinete, sob suspeitas de serem funcionárias fantasmas.

Também são citadas suspeitas de interferência em investigações envolvendo pessoas poderosas, destinação de emendas parlamentares a políticos posteriormente associados a investigações sobre milícias, apoio a figuras envolvidas em controvérsias criminais e viagens supostamente custeadas por um lobista investigado no caso das fraudes relacionadas ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Outro episódio que suscita questionamentos diz respeito a um pedido de recursos feito, segundo relatos e acusações públicas, a um empresário apontado como um dos responsáveis por grandes fraudes financeiras no país. O dinheiro teria sido destinado a um projeto audiovisual associado à promoção da imagem familiar e política. As controvérsias em torno dessa relação incluem versões divergentes sobre a origem e a circulação dos recursos, cuja trajetória financeira precisaria ser esclarecida de maneira documental.

A esses episódios somam-se críticas à atuação parlamentar do candidato, apontada por adversários como contraditória em relação às posições que ele costuma defender nas redes sociais e em discursos públicos.

Apesar desse histórico de controvérsias, sua campanha encontrou força em uma mensagem simples e eleitoralmente poderosa: a necessidade de promover uma mudança no comando do país. O discurso concentrou-se na rejeição a Lula e ao Partido dos Trabalhadores (PT), deixando em segundo plano o debate sobre a capacidade administrativa, a coerência política e os compromissos éticos de quem pretendia assumir o poder.

O resultado é uma contradição que ajuda a explicar a dinâmica da política brasileira: o bolsonarismo contribuiu para o retorno de Lula à Presidência, enquanto os erros e desgastes do próprio governo Lula voltam a oferecer combustível político ao bolsonarismo.

Essa dinâmica revela um ciclo de alternância entre grupos que se apresentam como antagônicos, mas que frequentemente são acusados de reproduzir práticas semelhantes na relação com as instituições, as estruturas de poder e os mecanismos de fiscalização e controle.

A disputa, nesse contexto, ultrapassa a divergência ideológica. O que está em jogo é o risco de que instituições públicas sejam instrumentalizadas por interesses partidários, independentemente de quem ocupe o governo. Quando a fiscalização é seletiva, a transparência perde espaço e a responsabilização depende da conveniência política, a democracia se fragiliza.

Enquanto isso, o país permanece dividido. Cada parcela do eleitorado deposita suas esperanças em um projeto apresentado como solução definitiva para os problemas nacionais, como se a simples vitória de um grupo fosse suficiente para superar décadas de corrupção, privilégios, autoritarismo e impunidade.

A realidade, porém, exige mais do que paixão política e rejeição ao adversário. Exige a capacidade de avaliar os próprios aliados com o mesmo rigor aplicado aos adversários, cobrar provas, exigir transparência e não transformar suspeitas em condenações nem denúncias em verdades incontestáveis.

O maior risco para o Brasil não está apenas na vitória de um ou de outro campo político, mas na consolidação de uma cultura em que os erros dos aliados são relativizados e os dos adversários se tornam instrumentos de guerra política.

Enquanto a população continuar escolhendo entre salvadores da pátria e inimigos a serem derrotados, sem exigir coerência, responsabilidade e respeito às instituições, a polarização seguirá funcionando como uma cortina de fumaça. E os grupos que prometem combater os problemas do país poderão continuar reproduzindo, cada um a seu modo, as práticas que dizem condenar.

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