Um documento apreendido pela
Polícia Federal no escritório da empreiteira Odebrecht, no Rio de
Janeiro, durante a 23ª fase da Operação Lava Jato, acusa procuradores do
Ministério Público Federal (MPF) de proteger políticos com mandato para
não perder a alçada das investigações e dos julgamentos em curso. A
análise, feita para consumo interno da companhia, diz que os
procuradores “querem julgar rapidamente os empresários como os
responsáveis pelas mazelas da corrupção no país, tornando-se heróis da
pátria, julgando somente uma parte do problema, como se esta fosse causa
principal”.
E deduz: “Talvez porque considerem que a verdadeira causa, que será julgada pelo STF, vai acabar em pizza”.
E deduz: “Talvez porque considerem que a verdadeira causa, que será julgada pelo STF, vai acabar em pizza”.
Lista da Odebrecht é ainda maior e tem 316 nomes
O documento com sete páginas e sem
assinatura é parte de um exame mais extenso sobre a situação geral das
empreiteiras. O texto acusa o MPF de adotar uma “interpretação
corporativa e leviana, que só aborda um lado da questão” da corrupção no
país. Disponibilizada pelo juiz Sérgio Moro, a peça não tem data ou
timbre da Odebrecht. Junto com extratos bancários e uma lista com nomes
de centenas de políticos de 24 partidos que receberam ajuda financeira
da companhia, o texto foi resgatado no escritório de Benedicto Barbosa
da Silva Júnior, diretor da Odebrecht, e faz parte do item 8 do auto de
apreensão 195/2016.
A análise cita fatos recentes da crise
política e acusa o trabalho da Lava Jato de ser uma “distorção da
realidade”, e não “a maior investigação de corrupção e lavagem de
dinheiro que o Brasil já teve”. Escrito para servir de defesa das
empreiteiras, o documento acusa os procuradores do caso de atribuir “à
organização do esquema de corrupção às empreiteiras, não ao governo,
tratando financiamento de partidos políticos como uma consequência, não
como origem e objeto central do esquema de corrupção”.
O texto considera uma boa iniciativa do
MPF a criação do site específico para informar à população sobre suas
atividades no combate à corrupção por meio da Lava jato. Mas alerta que
“seria necessário aprofundar as investigações antes de, apressada e
superficialmente, contar mentiras no site”. A análise considera as
empreiteiras vítimas dos políticos: “Definitivamente, as informações já
disponíveis, aí incluídas as delações premiadas, indicam que não foram
as grandes empresas de construção de engenharia industrial as
responsáveis iniciadoras da corrupção na Petrobras”.
Sem citar nomes ou partidos, a peça também faz uma análise da atuação das empreiteiras desde a década de 1980. Alega que o Estado desempenhava o papel central de investidor nos grandes empreendimentos na área de infraestrutura e na implantação da base industrial do país. A análise diz que o planejamento e os projetos executivos eram de responsabilidade do Estado, que priorizava os investimentos, definia as políticas e subsídios para cada setor e os orçamentos. Segundo o documento, imperava “a irresponsabilidade fiscal na execução dos contratos”. Na década de 1990, ainda segundo o texto, o processo de privatização de alguns segmentos destinou às empresas a elaboração de projetos executivos, o que transformou as construtoras em empreiteiras de obras e responsáveis por todas as fases da obra, com exceção da licitação.
Sem citar nomes ou partidos, a peça também faz uma análise da atuação das empreiteiras desde a década de 1980. Alega que o Estado desempenhava o papel central de investidor nos grandes empreendimentos na área de infraestrutura e na implantação da base industrial do país. A análise diz que o planejamento e os projetos executivos eram de responsabilidade do Estado, que priorizava os investimentos, definia as políticas e subsídios para cada setor e os orçamentos. Segundo o documento, imperava “a irresponsabilidade fiscal na execução dos contratos”. Na década de 1990, ainda segundo o texto, o processo de privatização de alguns segmentos destinou às empresas a elaboração de projetos executivos, o que transformou as construtoras em empreiteiras de obras e responsáveis por todas as fases da obra, com exceção da licitação.
Desmando e conivência
A análise, na verdade um reforço da
defesa das empreiteiras, diz que a Petrobrás adotou o modelo de farm
out, delegando a terceiros os investimentos que a estatal precisaria
fazer, mas não dispunha de recursos. O documento elogia o rigor das
áreas técnicas da petrolífera e a qualidade dos seus executivos. A
estatal, segundo o texto, sempre pode “impedir a formação de cartéis de
fornecedores, de projetistas e de empreiteiros”. O material acusa a
companhia de ser conivente com os desmandos descobertos agora na Lava
Jato.
“Não dá para acreditar que grandes
empresas concorrentes pudessem iniciar uma cartelização pura a ponto de
subjugar uma empresa do porte da Petrobrás, sem o seu conhecimento e a
sua vontade”, diz outro trecho do material.
Para justificar seu entendimento, a
análise apreendida na Odebrecht alega que a relação das empresas
concorrentes e fornecedoras da Petrobrás não é amistosa e que a
competição entre elas é bastante acirrada, além da capacidade de
julgamento da área de engenharia da companhia com profissionais
experientes, sérios e isentos. “É a Petrobrás que licita. É ela que
decide a quais empresas serão enviadas as Cartas Convites”, diz o texto.
O documento alega que os casos investigados pela Operação Lava Jato “nasceram, em certas áreas da Petrobrás, do achaque, da concussão, de empresas prestadoras de serviços e fornecedoras que, evidentemente aceitaram praticar o sobre-preço em benefício de agentes públicos, políticos e seus partidos, com a participação de doleiros para a lavagem do dinheiro”.
O documento alega que os casos investigados pela Operação Lava Jato “nasceram, em certas áreas da Petrobrás, do achaque, da concussão, de empresas prestadoras de serviços e fornecedoras que, evidentemente aceitaram praticar o sobre-preço em benefício de agentes públicos, políticos e seus partidos, com a participação de doleiros para a lavagem do dinheiro”.
A análise lembra que a corrupção, ao
contrário do que diz o site dos procuradores da Lava Jato, não teria
nascido das empreiteiras, e sim na estatal. “Ao contrário, tais
empresas, com longa tradição de prestação de serviços à Petrobrás,
dentro da maior lisura, forçadas a contribuir para projetos de poder,
começaram a aceitar participar de práticas criminosas para poder
conquistar contratos e cobrar seus recebíveis”, acrescenta o documento.
Em nota encaminhada à reportagem,
procuradores da Lava Jato diz desconhecer o documento. “A Força Tarefa
Lava Jato não tem conhecimento sobre este documento e seu teor. Contudo,
no site da operação (www.lavajato.mpf.mp.br) podem ser encontradas
todas as informações sobre as investigações, a deflagração das fases e
oferecimento de denúncias desde o início dos trabalhos, no ano de 2014. A
evolução das investigações levou ao desvelamento do esquema de
corrupção primeiramente frente aos núcleos de operadores financeiros
(doleiros) e, posteriormente, avançando até chegar aos núcleos de
agentes públicos (ex-diretores), núcleos de empresários e, por fim, de
agentes políticos. O site é atualizado conforme o avanço das
investigações”, explicou o órgão.
A assessoria de imprensa da empreiteira
Norberto Odebrecht não se pronunciou sobre o documento. Já os
procuradores da Operação Lava Jato foram procurados para comentar o
assunto, mas ainda não deram retorno aos contatos.
Congresso em Foco
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