“…O nosso governo precisa ter
iniciativas no plano econômico e ações políticas para romper o cerco em
torno dele”, escreveu Falcão no texto, que foi veiculado no site do PT e
nas redes sociais. “Afinal, não é possível que emissoras de rádio e TV,
concessões de serviço público, continuem, à margem da lei, propagando e
organizando o golpe.”
Falcão não deu nome às emissoras que
considera passíveis de sanção. Mas suas observações chegam quatro dias
depois da posse de Lula no cargo de ministro-chefe da Casa Civil. Nessa
solenidade, a claque de sindicalistas e militantes de movimentos sociais
que o PT levou ao Planalto entoou um dos bordões preferidos do partido:
“O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”.
O coro foi reproduzido à noite, em
reportagem do Jornal Nacional. Na sequência, o apresentador William
Bonner leu manifestação da Globo: “…Na posse do ministro Lula houve
palavras de ordem contra a Rede Globo. Entende-se o estado de espírito
dos militantes e políticos ligados ao PT, principalmente depois da
revelação oficial dos grampos autorizados pela Justiça. Mas nós
repetimos mais uma vez: a imprensa não produz grampos, nem conduz
investigações da polícia e da Justiça. A imprensa cumpre o dever de
informar sobre elas sem restrições, como assegura a Constituição. E
continuará assim.”
O texto de Rui Falcão ecoa um antigo
sonho do PT de impor controles à mídia, especialmente a eletrônica. Ao
realçar que as emissoras são “concessões de serviço público”, o
presidente do PT insinua que o governo talvez devesse cassar tais
concessões. Trata-se de uma bravata muito repetida pelos petistas em
privado. Mas nem Lula nem Dilma ousaram convertê-la em ações práticas
nos 13 anos de governos do PT.
Rui Falcão enalteceu as manifestações
promovidas na sexta-feira por entidades sindicais e movimentos sociais a
favor de Lula e do governo Dilma. Referiu-se a elas como atos “em
defesa da democracia, da legalidade, contra o golpe
jurídico-politico-midiático em andamento.” E criticou os analistas que
atribuem maior importância às manifestações anti-Dilma, que tomaram as
ruas no domingo anterior, 13 de março.
“Os comentaristas do quanto pior melhor
preferem valorizar a marcha do dia 13, uma manifestação contra tudo e
todos, que agrediu inclusive muitos que patrocinaram e participaram do
evento”, anotou Rui Falcão. “O que se viu e ouviu naquele dia foi uma
repulsa aos políticos e, pior ainda, à própria política, um movimento
assemelhado ao fascismo.” Assim o presidente do PT definiu os protestos
do dia 13, de dimensões históricas: um movimento de inspiração fascista.
De novo, o presidente do PT queixou-se
da imprensa eletrônica: “…a multidão foi insuflada pela mídia
monopolizada, que instiga a intolerância, o ódio e a violência –como
registrou a ampla cobertura [do dia 13], em contraste com o ato da
sexta-feira, quando o discurso do Lula foi boicotado nas transmissões de
TVs. A ofensiva golpista não hesita em criar o caos no país para
alcançar seu grande objetivo: depor a presidenta Dilma e assumir o
governo sem eleições.”
Embora Falcão sonegue novamente o nome
do alvo, sua crítica é claramente dirigida à GloboNews. O canal de
notícias da Globo dedicou ampla cobertura às manifestações de
sexta-feira. Mas não exibiu o discurso de Lula, transmitido por outras
emissoras. Argumentou que houve “falta de segurança” para que suas
equipes realizassem o trabalho. Profissionais da Globo e de outras tevês
têm sido hostilizados em atos públicos por simpatizantes do govenro e
militante do PT.
Rui Falcão traçou uma analogia entre os
defensores do impeachment e os apoiadores da ditadura militar.
“Diferentemente de outros períodos, em que os militares derrubaram
governos populares, a tática atual, coordenada em todo o Continente, é o
chamado golpe ‘constitucional’, em sintonia com setores do aparelho de
Estado e apoiado pela grande mídia.”
Para o dirigente petista o que “garante a
estabilidade e pode retomar o crescimento da economia é o governo
Dilma.” Ele atribui importância capital a Lula: “Foi este o sentido da
nomeação do ex-presidente Lula como ministro-chefe da Casa Civil, para
ajudar a presidenta e o país.”
A posse de Lula foi suspensa pelo
ministro Gilmar Mendes, do STF. Mas Falcão anotou em seu texto que a
conversão de Lula em ministro “não pode ser barrada por chicanas
jurídicas e grampos ilegais.”
Os grampos a que se refere Falcão são,
em verdade, interceptações telefônicas feitas pela Polícia Federal por
ordem do juiz Sérgio Moro. O conteúdo dos diálogos escalou as manchetes
porque o juiz da Lava Jato levantou o sigilo do processo.
Josias de Souza, UOL
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