quarta-feira, 29 de julho de 2026

PrEP injetável reduz risco de infecção por HIV para 0,1% ao ano, aponta estudo com quase 1,8 mil pessoas

 

Um estudo realizado nos Estados Unidos reforçou a eficácia da profilaxia pré-exposição (PrEP) injetável na prevenção da infecção pelo HIV. A pesquisa mostrou que o uso do cabotegravir, medicamento aplicado a cada dois meses, resultou em uma taxa de incidência de apenas 0,1% ao ano entre os usuários acompanhados, indicando um alto nível de proteção quando o tratamento é seguido corretamente.

Os resultados foram divulgados pela ViiV Healthcare, empresa especializada no desenvolvimento de medicamentos para HIV e representada no Brasil pela biofarmacêutica britânica GSK.

Estudo acompanhou quase 1,8 mil usuários

A pesquisa analisou dados de 1.748 pessoas com 18 anos ou mais, atendidas em 101 clínicas distribuídas por 23 estados norte-americanos. Todos os participantes receberam pelo menos uma aplicação de cabotegravir entre dezembro de 2021 e junho de 2024.

O objetivo foi avaliar tanto a adesão ao esquema de aplicação bimestral quanto a efetividade do medicamento na prevenção da infecção pelo HIV em condições reais de uso.

Ao longo do acompanhamento, a taxa registrada foi de 0,10 caso por 100 pessoas-ano, índice considerado extremamente baixo por especialistas.

Especialista destaca elevada eficácia

Para o infectologista Álvaro Costa, do Hospital das Clínicas e subinvestigador da Unidade de Pesquisa do Centro de Referência e Tratamento DST/Aids, os resultados confirmam o potencial da PrEP injetável como uma das ferramentas mais eficazes na prevenção do HIV.

"É uma ferramenta que praticamente barra definitivamente a infecção pelo HIV. Esses casos relatados no estudo ocorreram em pacientes que esqueceram ou atrasaram as aplicações. Quando a adesão é adequada, o medicamento funciona muito bem."

Segundo o especialista, pesquisas realizadas em condições reais complementam os ensaios clínicos por demonstrarem como o medicamento se comporta na rotina dos pacientes.

"É muito interessante observar esse desempenho na prática, porque confirma o que já havia sido demonstrado nos estudos clínicos."

Perfil dos participantes

A maioria dos voluntários era composta por homens jovens, com idade mediana de 33 anos.

Cerca de 40% dos participantes haviam relatado pelo menos uma infecção sexualmente transmissível (IST) no ano anterior ao início do acompanhamento, grupo considerado de maior vulnerabilidade para a infecção pelo HIV.

Além da eficácia, os pesquisadores também avaliaram a adesão dos pacientes ao esquema de aplicações a cada dois meses.

Como funciona a PrEP

A profilaxia pré-exposição (PrEP) consiste no uso preventivo de medicamentos por pessoas sem HIV, antes de situações de risco, impedindo que o vírus consiga se estabelecer no organismo.

No Brasil, a PrEP oral, administrada diariamente, é oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2017.

Já o cabotegravir injetável, aplicado a cada dois meses, foi aprovado no país e está disponível na rede privada desde agosto de 2025. Sua incorporação ao SUS ainda está em análise pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).

Potencial para reduzir milhares de infecções

Outro estudo desenvolvido pela GSK, publicado na revista científica Value in Health, estima que a adoção do cabotegravir poderia evitar aproximadamente 385 mil das cerca de 600 mil infecções por HIV projetadas para o Brasil na próxima década.

Segundo a pesquisa, essa estratégia também poderia representar uma economia de aproximadamente R$ 14 bilhões em custos relacionados ao tratamento da doença ao longo do período.

Nova geração de medicamentos

Outra tecnologia aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é o lenacapavir, primeiro medicamento preventivo administrado apenas duas vezes por ano.

Apesar de ter recebido registro no Brasil em janeiro deste ano, o medicamento ainda não está disponível no mercado nacional devido ao elevado custo. Nos Estados Unidos, o tratamento supera US$ 28 mil por pessoa ao ano, valor equivalente a aproximadamente R$ 150 mil.

Aplicação periódica pode melhorar a adesão

Embora a PrEP oral já apresente elevada eficácia, especialistas avaliam que os medicamentos injetáveis podem aumentar a adesão ao tratamento, reduzindo o número de pessoas que abandonam o uso preventivo.

Segundo Álvaro Costa, muitos pacientes demonstram preferência pelas aplicações periódicas em vez do uso diário de comprimidos.

"Os estudos mostram que muitos usuários preferem uma aplicação a cada dois meses do que tomar um comprimido todos os dias. Mas essa escolha deve ser individualizada, respeitando o perfil e a preferência de cada pessoa."

O infectologista ressalta que a PrEP permanece entre as estratégias mais eficazes para reduzir a transmissão do HIV.

"A PrEP é uma ferramenta extremamente segura e eficiente quando utilizada com orientação e acompanhamento adequados. Diversos estudos mostram redução superior a 95% no risco de infecção pelo HIV. É uma tecnologia que funciona e merece ampla implementação."

Ele destaca ainda que a prevenção deve considerar os hábitos da população.

"Muitas pessoas têm dificuldade em manter o uso constante do preservativo. Isso não é uma questão de julgamento, mas uma realidade observada historicamente no Brasil e em diversos países."

HIV continua sendo desafio para a saúde pública

Apesar dos avanços obtidos no tratamento e na prevenção, o HIV continua representando um importante desafio para a saúde pública.

Em 2024, o Brasil registrou 39.216 novos casos de infecção pelo vírus.

Diante desse cenário, especialistas defendem a ampliação do acesso às diferentes estratégias preventivas, combinando métodos como preservativos, PrEP oral, PrEP injetável, testagem regular e acompanhamento médico, de forma individualizada, para reduzir a transmissão do HIV e ampliar a proteção da população.


Fonte: ViiV Healthcare, GSK, Hospital das Clínicas, Centro de Referência e Treinamento DST/Aids.

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