As contratações de trabalhadores temporários anunciadas nas últimas
semanas por quatro montadoras, para reforçar a produção de carros
voltada às exportações, é um sinal de que o comércio exterior pode
amenizar parte dos efeitos da crise atual no mercado interno. Com a
desvalorização do real, as exportações de produtos brasileiros começam a
se tornar mais competitivas e as negociações internacionais voltam ao
radar da indústria.
Embora alguns movimentos sejam
pontuais, há indicadores mostrando que as empresas brasileiras iniciam
uma recuperação no cenário internacional. Dados da Fundação Centro de
Estudos do Comércio Exterior (Funcex) apontam que a quantidade exportada
da indústria de transformação cresceu 14,7% entre janeiro e abril ante o
mesmo período de 2015. As principais altas foram em produtos têxteis
(27%), veículos automotores (18%) e máquinas e equipamentos (17%). "O
câmbio no nível que está é mais favorável e está sendo positivo para as
exportações", diz André Leone Mitidieri, economista da Funcex.
O
crescimento da exportação de manufaturados também é explicado pela
melhora do comércio com a Argentina. O governo Mauricio Macri começou a
rever parte das medidas protecionistas adotadas pelo governo anterior,
de Cristina Kirchner.
A recuperação do setor externo tem
sido a principal notícia positiva da economia. No resultado do Produto
Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, a queda de 0,3% foi menos
intensa do que o esperado e um dos fatores que contribuiu foi a melhora
do quadro externo. Neste ano, os economistas já estimam que o superávit
da balança comercial deverá ser de US$ 50 bilhões, também favorecido
pela queda das importações. Se confirmado, será o melhor resultado da
série histórica.
"O fato de o governo ter agilizado acordos
com Peru e México no setor automotivo e a desvalorização do câmbio
colaboram para a exportação (de manufaturados) mesmo que não estejamos
num cenário internacional maravilhoso", afirma Lia Valls Pereira,
pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio
Vargas (Ibre/FGV).
A Sondagem da Indústria, apurada pelo
Ibre/FGV, também mostra que há otimismo dos empresários com o comércio
internacional. No trimestre encerrado em maio, o indicador ficou em
104,6 pontos, praticamente estável em relação à leitura anterior. Para a
demanda prevista para os próximos três meses, o indicador aumenta para
104,9 pontos - o mais alto desde novembro. Quando o índice fica acima de
100 pontos, há mais respostas favoráveis do que desfavoráveis, ou seja,
mais empresários indicaram que a demanda externa está positiva.
O
otimismo com o cenário internacional fica evidente porque o índice
geral de confiança da indústria, que inclui a demanda interna, está em
79,2 pontos. "Apesar de os dados de demanda externa estarem caindo na
ponta, há uma previsão de manutenção de um patamar de exportação para os
próximos meses", afirma Tabi Thuler Santos, economista do Ibre/FGV e
coordenadora da pesquisa.
Margem
Na
empresa 2Rios Lingerie, a venda de peças para o exterior cresceu 65% de
janeiro a maio. "Quando o real estava valorizado, muitas vezes
sacrificamos a nossa margem para nos manter em alguns mercados
internacionais. Hoje, estamos conseguindo melhores resultados", afirma
Matheus Fagundes, presidente da empresa.
A 2Rios exporta há
13 anos e tem como principal mercado os países da América do Sul. No
projeto de internacionalização da empresa está a criação de um
e-commerce exclusivo para os consumidores dos Estados Unidos no segundo
semestre. No ano que vem, a expectativa é inaugurar a primeira loja
física fora do Brasil.
O presidente da Associação de
Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, vê os sinais
de retomada das exportações como um "alento" para a indústria, embora
ainda insuficiente para compensar significativamente as perdas no
mercado doméstico. "Há uma tentativa de, pouco a pouco, retomar o espaço
que era do Brasil no passado e hoje está ocupado por outros países." As
informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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