Blog da Marina Silva
A democracia, assim como toda a ação
política que se realiza dentro dela e por meio dela, pressupõe profundo
respeito e o cumprimento das regras que a sustentam. Uma ação ou um
determinado processo político não se transforma em democrático apenas
por declarações inflamadas ou meramente retóricas a respeito da
democracia. No entanto, está parece ser a visão de muitos políticos ou
de seus seguidores que confundem democracia com seus próprios
interesses. Em seu discurso é democrático apenas o que está de acordo
com a sua vontade.
É democrático montar um pesado sistema
de desvio de recursos públicos, fraudes, tráfico de influência, caixa 2
para amealhar centenas de milhões de reais e assim financiar campanhas
que já vêm marcadas pela venalidade da relação entre políticos e seus
financiadores?
É democrático mentir, caluniar, difamar,
armar simulacros de programas ou lançar mão de técnicas de marketing
para maquiar a realidade, com a finalidade de perpetuar-se no poder,
burlando regras que deveriam ser seguidas por todos?
É democrático mudar a Constituição
Federal por meio de um destaque e anular o preceito constitucional que
instituiu – em seu artigo 52, parágrafo único – expressamente como
consequência de uma decisão de impeachment: “(…) perda do cargo, com
inabilitação, por oito anos, para o exercício da função pública”?
É democrático fragilizar a base
constitucional da nação por motivos casuísticos, para satisfazer
interesses políticos e fortalecer jogos políticos que tanto mal já
causaram à sociedade?
O que avilta a democracia é a
relativização dos valores para facilitar a convivência cínica com vários
pesos e medidas. O que avilta a democracia é a existência de visões e
estruturas políticas e ideológicas autoritárias, que se arvoram do poder
de decretar o que é o bem e o que é o mal, sempre em benefício próprio e
das ambições pessoais ou de um grupo.
O que avilta a democracia é a frouxidão e
o descaso com os valores da ética e da justiça. É sacrificar a vida de
pessoas, submetendo-as a situações de profunda angústia, como a gerada
pelo desemprego, sem sequer fazer uma autocrítica de erros, de desvios,
de assalto ao patrimônio público.
O que avilta a democracia é a falta de
atenção prioritária à saúde, à educação, à proteção ao meio ambiente e
outros requisitos para que todos tenham uma vida digna.
O que avilta a democracia é a lógica
populista, quer de direita ou de esquerda, de fulanizar e partidarizar
conquistas importantes para a sociedade em lugar de institucionalizá-las
como direitos, em respeito à cidadania.
Uma das formas de golpear a democracia
acontece quando um grupo político decide desviar recursos públicos para
financiar ilicitamente campanhas e assim fraudar resultados eleitorais,
interferindo de forma ilegítima na vontade soberana da maioria.
Na presente conjuntura, esse golpe
aconteceu e só poderá ser reparado e verdadeiramente punido com outro
julgamento, que não é o do impeachment da, então agora, ex-presidente
Dilma. Trata-se do julgamento do TSE sobre as fraudes da campanha de
Dilma e Temer em 2014. O TSE tem em suas mãos o poder de desfazer o
malfeito, demonstrando que acabou o tempo das apostas de que tudo pode
ser feito e nenhuma punição virá para aqueles que, efetivamente, aviltam
a democracia.
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