Mensagens enviadas por celular
pelo dono da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa, e um executivo do grupo, no
final de julho de 2014, sugerem que as doações da empreiteira para a
campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff estavam relacionadas
ao recebimento de valores dos contratos que ele detém na Petrobras,
revela análise feita pela Polícia Federal com base em material anexado
aos autos da Operação Lava Jato.
Em um dos trechos do material analisado
pela PF, um subordinado de Pessoa na UTC sugere que repasses da
empreiteira à campanha eleitoral do PT foram “resgatados” de dinheiro
desviados da Petrobras. Neste mês, o Supremo Tribunal Federal determinou
a abertura de um inquérito para investigar o ministro Edinho Silva
(chefe da Secretaria de Comunicação Social), que foi o tesoureiro da
campanha da presidente no ano passado.
A troca de mensagens indica que o chefe
de gabinete de Edinho Silva, Manoel Araújo Sobrinho, foi a ponte de
cobrança desses valores, pagos em duas parcelas. Às 10h33 do dia 29 de
julho de 2014, quando já estava valendo o calendário oficial da campanha
eleitoral, Walmir Pinheiro, um dos executivos da UTC, escreve para o
Pessoa: “RP, vc acha que eu devo ligar para o contato que o bovino
religioso passou???.”
A Polícia Federal não identificou quem
seria “bovino religioso”. Porém, duas horas depois, Ricardo Pessoa
responde que esteve com um interlocutor, cujo nome foi ocultado por
tarja no documento da PF, e passa as orientações de quem procurar e o
valor “acertado”: “A pessoa que você tem que ligar é Manoel Araújo tel:
16 (…). Acertado 2.5 dia 5/8 (até) e 2.5 até 30/8. Ligue para ele que
está esperando. O problema é bem maior. Me dê resposta.”
Coincidentes
No Tribunal Superior Eleitoral (TSE) há o
registro de duas doações de R$ 2,5 milhões para a campanha de Dilma em
datas coincidentes com as comunicações de Ricardo Pessoa e o subordinado
dele na UTC. Uma doação ocorreu no dia 5 de agosto, como indicado por
Pessoa, e outra do dia 27 de agosto, três dias antes do combinado.
Do total de doações que a UTC fez nas
eleições de 2014 – R$ 52,2 milhões, a campanha da petista recebeu R$ 7,5
milhões. Houve um terceiro repasse de R$ 2,5 milhões no dia 22 de
outubro. O nome de Manoel Araújo caiu no radar da Lava Jato quando foram
encontrados os registros de doação da UTC. Em um deles, o nome do chefe
de gabinete aparece como contato do comitê da campanha de Dilma e o
nome do ministro Edinho Silva, como responsável pela emissão do recibo.
Em um dos registros, anotado à caneta, consta: “2.500 – 05/08 / 2.500 –
30/08?”. Um dos números de telefone de contato de Araújo é o mesmo da
mensagem mandada por Pessoa ao seu executivo, com código de área 16. O
outro é o telefone do comitê da campanha presidencial, em Brasília.
A análise dos equipamentos apreendidos
com os executivos da UTC mostra ainda que no dia 24 de julho de 2014,
Pessoa recebeu um e-mail de um interlocutor agendando encontro no comitê
da campanha presidencial em Brasília, às 11h do dia 29 – quando se dá a
troca de mensagens. O nome do interlocutor da agenda marcada está
encoberto com tarja pela PF, bem como o nome da presidente Dilma
Rousseff, porque eles não podem ser investigado pela Justiça na primeira
instância.
Petrobras
Às 15h23, duas horas e meia após ser
orientado por Pessoa a procurar Manoel Araújo, o executivo da UTC
escreve para o chefe. “Já estive com ele. Abrs”. Os dois então seguem a
troca de mensagens sobre os valores a serem pagos. “Ele pensa que é 5,
mas é 4. Ele me pediu 1. Então só dei 1. Contorne ai pois ainda tem
rescaldo”, orienta Ricardo Pessoa.
O executivo da UTC sugere então o
abatimento de valores doados e também relaciona os pagamentos à entrada
de dinheiro da “PB”, que, para a PF, é a sigla usada por eles para citar
Petrobras. Walmir Pinheiro foi preso com Pessoa em 14 de novembro de
2014, alvo da 7ª fase da Lava Jato, batizada de Juízo Final. “RP, posso
resgatar o que fizemos de doações esta semana?? Tá pesado e não entrou
um valor da PB que estava previsto para hj, +/- 5mm”, pergunta o
executivo. O dono da UTC concorda: “Ok pode. Você não resgatou nada
ainda certo?”.
Segundo a análise dos investigadores, os
resgates poderiam ser a compensação de valores pagos em propina. “Esta
semana já foi 6 35 de contribuição e não resgatamos nada”. Pessoa fez
acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República. Ele
confessou ter repassado valores de propina para o PT e citou 18
políticos.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
fonte: Estadão Conteúdo
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