O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), recebeu
da assessoria da Casa um parecer pela admissibilidade de um pedido de
impeachment da presidente Dilma Rousseff. O sinal verde da área jurídica
reforça a possibilidade de o peemedebista decidir, de maneira
monocrática, pelo início da ação.
O parecer está fundamentado em ao menos dois pedidos de impeachment que
acusam a gestão da presidente Dilma de ter repetido, neste ano, a
prática das pedaladas fiscais - manobras contábeis reprovadas pelo
Tribunal de Contas da União (TCU) em relação ao ano passado.
Conforme o entendimento da assessoria jurídica, o chefe do Executivo
pode ser responsabilizado por irregularidades cometidas no mandato em
curso. Nesse caso, se o Congresso entender que Dilma repetiu as
pedaladas neste ano, ela poderia ser alvo de um processo de impeachment.
Até o momento, Cunha já rejeitou 11 pedidos de impeachment apresentados
na Casa e sustentava publicamente que não via crime de responsabilidade
nas pedaladas e outras irregularidades das quais Dilma é acusada porque
haviam sido praticadas no mandato anterior da petista.
O jornal O Estado de S. Paulo apurou que Cunha admitiu a aliados a
possibilidade de aceitar o impeachment caso o procurador-geral da
República, Rodrigo Janot, apresente o pedido de afastamento dele da
presidência da Câmara. O deputado disse negar "veementemente" essa
informação que, para ele, "cheira a molecagem".
Segundo um aliado do peemedebista, Cunha não aceita a hipótese de Janot
pedir seu afastamento sem que, para isso, o procurador-geral tenha
recebido o aval do Palácio do Planalto. Nesse caso, a abertura do
processo de impeachment seria um resposta dele a Janot e a Dilma.
Esse mesmo aliado disse que um dos pareceres favoráveis está
fundamentado no pedido de impeachment apresentado pelo advogado Luis
Carlos Crema. O embasamento jurídico é o mesmo do requerimento assinado
pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal: a
repetição das pedaladas neste ano.
De acordo com o Ministério Público, que atua junto ao Tribunal de
Contas da União, o governo Dilma repetiu as pedaladas fiscais em 2015.
As manobras, que consistem em atrasar o repasse de recursos do Tesouro
Nacional a bancos públicos, foram a principal "distorção" a embasar a
rejeição das contas presidenciais de 2014 pelos ministros da corte.
O presidente nacional do PT, Rui Falcão, afirmou que o parecer
pró-impeachment não preocupa o partido. "É apenas uma análise para ver
se esse pedido tem condições de ser aceito", afirmou o petista.
Cassação
Alvo de uma ofensiva de um grupo de parlamentares que protocolou uma
ação pela cassação de seu mandato, Cunha busca apoio do governo e a
oposição para permanecer no cargo e, no limite, na Câmara dos Deputados.
Segundo seus aliados, o peemedebista pretende utilizar a possibilidade
constitucional de aceitar ou não um pedido de impeachment contra Dilma
para negociar com os dois lados da luta partidária.
O presidente da Câmara é acusado por corrupção e lavagem de dinheiro em
denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral ao Supremo Tribunal
Federal no âmbito da Operação Lava Jato. Ele também é alvo de inquérito
na Corte pela suspeita de manter contas secretas no exterior.
Cunha disse nesta terça-feira que os pedidos de impeachment ainda estão
sob análise. Em nota, enfatizou que, independentemente da orientação
jurídica, a palavra final sobre a abertura de processo de afastamento da
presidente da República é dele.
"O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, afirma que não
recebeu qualquer parecer da área técnica da Casa sobre os pedidos de
impeachment contra a presidente Dilma Rousseff que ainda estão sob
análise. Cunha reitera ainda que cabe a ele a decisão sobre o andamento
dos processos independentemente da orientação jurídica."
Um aliado de Cunha disse que o parecer a ser divulgado pode ser tanto a
favor quanto contra, a depender da vontade do presidente da Câmara.
À reportagem, Cunha afirmou que não recebeu ainda a manifestação do
corpo jurídico. "Não recebi nada. E, mesmo, que tenha recebido, a última
palavra será minha. Eu posso concordar ou não com pareceres."
No início deste mês, deputados governistas recorreram ao Supremo e
conseguiram decisões liminares que suspenderam o rito do impeachment
estabelecido por Cunha e defendido pela oposição ao Planalto.
As decisões do STF vetaram a possibilidade de a oposição recorrer para
reverter uma eventual decisão contrária do presidente da Casa à abertura
do impeachment. Conforme o rito de Cunha, esse recurso seria submetido
ao plenário da Câmara e poderia ser derrubado por maioria simples.
Porém, as decisões liminares não tiraram de Cunha o poder de decidir
pelo deferimento (aceitação) dos pedidos. Ele mantém o poder
monocrático, conforme a lei, de aceitar ou não a abertura da ação.
A oposição pressiona para que ele se manifeste até o dia 15 de novembro
sobre os novos pedidos que estão na Casa. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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