América Latina
Os
alertas já recomendavam medidas de proteção contra a doença nesses
países, mas foram atualizados com informações sobre possíveis efeitos em
gestantes.
"O
zika vírus pode passar da mulher grávida para o bebê. Há relatos de um
sério defeito no cérebro chamado microcefalia e de outros problemas em
bebês de mulheres que foram infectadas pelo vírus na gravidez", diz o
texto.
Para as grávidas em qualquer trimestre da gestação, o CDC recomenda
adiar a viagem para algum destes países. E para as que planejam
engravidar, a recomendação é conversar com seus médicos sobre os riscos.
Em
entrevista à BBC Brasil um dia antes da atualização do alerta, o
diretor da Divisão de doenças transmitidas por vetores do CDC, Lyle
Petersen, afirmou que o Brasil não seria o único país ao qual a
recomendação se referiria, apesar de ter sido o primeiro país do
hemisfério ocidental a registrar uma epidemia do zika vírus e o único,
até o momento, a detectar casos de microcefalia associados à doença.
"O
Brasil foi o país do continente que primeiro teve uma epidemia de zika.
Mas pode ser razoável assumir que o pior já tenha passado, enquanto que
em outros países, ainda pode estar começando", disse.
"O
que tende a acontecer em surtos desse tipo é que um número muito grande
de pessoas é infectada na primeira onda, quando o vírus atinge a
população. Depois disso, o nível de transmissão pode tornar-se bem
menor. Os dados que temos mostram que o maior número de casos de zika,
especialmente no nordeste do Brasil, aconteceu no começo de 2015. Por
isso estamos vendo os casos de microcefalia agora", disse.
"Então é possível que o nível de transmissão já tenha atingido seu pico ao menos nessa parte do país."
Vírus nos EUA
Na
última quarta-feira, a confirmação de que uma mulher de Harris County,
no Texas, estava com zika após uma viagem a El Salvador preocupou as
autoridades americanas.
No
final de dezembro, a chegada do vírus a Porto Rico também soou o alarme
na imprensa, que especula a possibilidade de uma epidemia associada à
microcefalia semelhante à brasileira no país.
Petersen,
no entanto, diz que o caso do Texas não foi o primeiro registrado da
presença zika vírus – do tipo asiático, como o que estaria presente no
Brasil – nos EUA.
"Há
alguns anos identificamos pessoas que chegam aos Estados Unidos
infectadas com o vírus, principalmente da região do Pacífico. É uma
doença que se espalha por viajantes, então casos 'importados' assim são
esperados e esse número deve crescer", afirma.
"Identificamos
11 pessoas que chegaram ao país com zika entre 2010 e 2014. E como
muitas pessoas não têm sintomas, o número dos que vêm com a virose deve
ser bem maior."
Segundo
o pesquisador, a explicação para que a presença do vírus nos EUA – e
possivelmente em outros países do continente americano – não tenha
causado epidemias até então não é simples.
"O
vírus pode ser introduzido em uma área muitas e muitas vezes antes de a
infecção local começar. É um caso de má sorte, de certo modo. Se a
pessoa infectada entra no país e não é picada por um mosquito, nada
acontece. Então o vírus provavelmente entrou nas Américas muitas e
muitas vezes antes de as condições serem as ideais para uma epidemia."
Mas
Petersen acredita que, a julgar pelo histórico de outras doenças
transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, que só está presente nas
regiões mais ao sul dos Estados Unidos, é menos provável que o problema
lá tome a mesma proporção que tem no Brasil.
"Ainda
não detectamos transmissão local aqui. Estamos preocupados com essa
possibilidade, mas se o vírus seguir o mesmo padrão da dengue, poderemos
ter transmissão local e surtos menores, mas não uma epidemia gigante
como a que se vê no Brasil ou em outras regiões tropicais", afirma.
"Foi
exatamente o que aconteceu com a chikungunya. Houve milhões de casos
nas Américas, mas nos Estados Unidos tivemos cerca de uma dúzia."
Boatos
Após
confirmar que o zika vírus foi encontrado em bebês brasileiros com
microcefalia mortos após o nascimento, o CDC acredita estar mais perto
de comprovar a conexão entre a doença e a má-formação, segundo o
cientista. "Eu diria que a chance de a microcefalia não ter sido causada
pelo zika vírus é extremamente pequena."
Um
grupo de patologistas do CDC examinou quatro amostras coletadas no Rio
Grande do Norte e enviadas ao centro americano pelo Ministério da Saúde.
Duas delas eram de bebês microcéfalos que morreram 24h depois de
nascer. As outras duas eram de placentas de mulheres que tiveram abortos
espontâneos de fetos com microcefalia.
Os testes encontraram o vírus tanto no tecido cerebral dos bebês quanto nas placentas das mães.
Para
o pesquisador, os dados já reunidos deixam pouco espaço para teorias
como a de que vacinas ministradas em gestantes ou contato com
agrotóxicos poderiam ter causado o aumento de casos da má-formação.
O Ministério da Saúde já negou ambas as possibilidades, mas as teses ainda circulam nas redes sociais brasileiras.
"Acho
que a chance disso é bastante pequena por algumas razões. A primeira é
que nenhuma vacina ministrada em mulheres hoje foi associada a nada do
tipo. Temos anos de experiência e milhões de pessoas testadas. E eu
nunca vi algo assim com nenhuma vacina", afirma Petersen.
"A
segunda razão é que, dado o fato de que o aumento de casos também
aconteceu na Polinésia Francesa após um surto de zika, a ideia de que
algum agrotóxico local possa ter causado isso não faz muito sentido.
Teria que ser um químico presente nos dois países e que tenha agido ao
mesmo período da epidemia do zika vírus."
"Além
disso, quando você examina imagens dos cérebros das crianças, elas têm
semelhanças com o que se vê em casos de infecções como a rubéola. Por
isso, parece mesmo ser uma má-formação causada por infecção."
Mesmo
assim, ele diz que mais estudos serão necessários para estabelecer
definitivamente a relação entre o vírus e o sintoma nos bebês.
"Ainda
não podemos falar em 100% de certeza, mas estamos chegando lá. O
Ministério da Saúde brasileiro está certo, mas ainda queremos ver mais
evidências como esta que acabamos de encontrar. Estes são alguns casos
no meio de mais de 3.500 bebês (com suspeita de microcefalia) no país."
O
CDC vai colaborar com pesquisadores brasileiros em novos estudos que
tentarão dimensionar os riscos de mães que tiveram o zika vírus na
gravidez de terem bebês com microcefalia.
"Esses
estudos poderão responder a perguntas como: 'Quão grande é a chance de o
bebê ter microcefalia se a mãe teve zika? É certeza que isso acontecerá
ou é uma chance em 100?", diz.
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