De 60,3% em 2018 a 82% em julho de 2026, o endividamento avançou 21,7 pontos percentuais. Por trás do recorde, porém, existe uma história mais complexa: crédito, juros, renda, cartão de crédito e capacidade de pagamento se misturam em um cenário que merece atenção.
O percentual de famílias brasileiras endividadas atingiu 82% em julho de 2026, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
O número representa o sexto recorde consecutivo da série e supera em 3,5 pontos percentuais o resultado de julho de 2025, quando 78,5% das famílias estavam endividadas. Em junho de 2026, o indicador estava em 81,6%.
Mas o dado mais interessante da pesquisa talvez esteja justamente naquilo que ele não mostra à primeira vista.
Enquanto o número de famílias endividadas bateu recorde, a parcela de famílias com dívidas em atraso caiu de 29,9% para 29,8% entre junho e julho. Em relação a julho de 2025, houve também uma pequena redução, de 30% para 29,8%.
Ou seja: mais famílias possuem dívidas, mas isso não significa automaticamente que mais famílias estejam deixando de pagar.
O salto de 21,7 pontos percentuais
A dimensão da mudança fica mais clara quando se observa a trajetória desde 2018.
| Ano / período | Famílias endividadas |
|---|---|
| 2018 | 60,3% |
| 2019 | 63,6% |
| 2020 | 66,5% |
| 2021 | 70,9% |
| 2022 | 77,9% |
| 2023 | 77,8% |
| 2024 | 76,7%* |
| 2025 | 76,9%* |
| 2026 — julho | 82,0% |
* Os números de 2024 e 2025 precisam ser identificados conforme a base utilizada — média anual ou determinado mês. A CNC registra, por exemplo, 78,9% em dezembro de 2025, maior nível para um mês de dezembro.
Considerando 60,3% em 2018 e 82% em julho de 2026, o aumento foi de 21,7 pontos percentuais.
A transformação foi particularmente intensa entre 2019 e 2022. Nesse intervalo, a média anual passou de 63,6% para 77,9%.
O movimento, portanto, não começou em 2026. O recorde atual é resultado de uma trajetória de vários anos.
PRIMEIRA PISTA: O CRÉDITO ENTROU MAIS PROFUNDAMENTE NO ORÇAMENTO
Uma das explicações para o aumento do endividamento está na própria expansão do acesso ao crédito.
O Banco Central identifica que o endividamento das famílias perante o Sistema Financeiro Nacional mudou de patamar principalmente a partir do fim de 2021. Segundo a instituição, a inclusão bancária, as inovações tecnológicas e condições favoráveis no mercado de trabalho contribuíram para ampliar o número de tomadores de crédito.
O BC também observa que, posteriormente, o custo do crédito aumentou durante o ciclo de alta da taxa Selic, enquanto houve expansão da demanda por crédito emergencial, geralmente mais caro.
Isso ajuda a explicar uma aparente contradição:
o aumento do endividamento não significa necessariamente que todas as famílias estejam em situação de inadimplência.
Uma família pode contratar um financiamento ou utilizar o cartão de crédito e pagar regularmente suas parcelas.
O problema aparece quando a dívida cresce mais rapidamente que a capacidade de pagamento.
SEGUNDA PISTA: O CARTÃO DE CRÉDITO
Entre as modalidades de dívida pesquisadas pela PEIC, o cartão de crédito permanece como um dos principais componentes do endividamento das famílias.
Em julho de 2026, 85,3% das famílias endividadas declararam possuir dívidas no cartão de crédito, segundo dados divulgados a partir da pesquisa da CNC.
Isso é relevante porque o cartão pode cumprir dois papéis completamente diferentes.
Para uma família com renda suficiente, ele pode funcionar apenas como instrumento de pagamento.
Para outra, pode representar uma forma de financiar despesas correntes.
É justamente nesse segundo caso que a estrutura da dívida merece maior atenção, especialmente quando o consumidor precisa recorrer continuamente ao crédito para fechar o orçamento mensal.
TERCEIRA PISTA: QUASE UM QUINTO DAS FAMÍLIAS TEM MAIS DA METADE DA RENDA COMPROMETIDA
O número de famílias endividadas é apenas uma parte da história.
Em julho, 19% das famílias tinham mais de 50% da renda comprometida com o pagamento de dívidas, o maior percentual desde março de 2026.
Ao mesmo tempo, entre os consumidores endividados, o comprometimento médio do orçamento com dívidas estava em 29,5%.
Esses dois números ajudam a separar situações muito diferentes.
Uma família que compromete 10% ou 15% da renda com parcelas está em uma situação financeira diferente daquela que precisa destinar mais da metade de sua renda aos credores.
Por isso, olhar apenas para os 82% de endividamento pode esconder diferenças importantes dentro do próprio universo de famílias endividadas.
A INADIMPLÊNCIA CONTA UMA HISTÓRIA DIFERENTE
Se o endividamento bate recorde, por que a inadimplência caiu?
Em julho de 2026, a parcela de famílias com dívidas em atraso caiu para 29,8%, contra 29,9% em junho e 30% um ano antes.
O tempo médio de atraso também recuou para 64,6 dias, contra 65,1 dias em abril. A parcela de inadimplentes com débitos atrasados por mais de 90 dias também caiu para 48,5%.
Isso indica que o aumento do endividamento e o atraso no pagamento não caminharam exatamente na mesma direção em 2026.
Há, portanto, uma diferença fundamental:
endividamento mede a presença de dívidas; inadimplência mede a dificuldade de pagá-las dentro do prazo.
O EFEITO DAS RENEGOCIAÇÕES
Outro elemento que precisa entrar na investigação são os programas de renegociação.
Os dados de julho foram divulgados após os primeiros 90 dias do Desenrola 2.0, programa destinado à renegociação de dívidas.
A inadimplência apresentou uma pequena melhora no período, mas o endividamento continuou avançando.
Isso significa que a renegociação pode ajudar a retirar determinadas dívidas do atraso sem necessariamente reduzir o número de famílias que possuem compromissos financeiros.
Em outras palavras:
renegociar uma dívida pode transformar a situação de pagamento sem eliminar a obrigação financeira.
Por isso, uma queda da inadimplência não deve ser interpretada isoladamente como redução do peso total das dívidas.
O BANCO CENTRAL ENXERGA OUTRO PROBLEMA: O CUSTO DO CRÉDITO
Os dados do Banco Central ajudam a completar o quadro.
Em relatório publicado em junho de 2026, o BC afirmou que o endividamento das famílias permanecia elevado e que o comprometimento da renda havia atingido 29,6% no mês anterior ao relatório.
A instituição também apontou que o aumento do custo do crédito durante o ciclo de alta da Selic e a expansão da procura por crédito emergencial contribuíram para o recorde de comprometimento da renda.
Em outro conjunto de dados, o Banco Central define o comprometimento de renda como a relação entre os pagamentos esperados do serviço da dívida e a renda mensal das famílias.
Isso é importante porque não basta saber quanto uma família deve.
Também é necessário saber quanto custa carregar essa dívida.
E A RENDA DAS FAMÍLIAS?
Existe ainda uma terceira variável nessa equação: a renda.
Os dados do IBGE mostram que o rendimento médio real habitual das pessoas ocupadas chegou a R$ 3.762 no trimestre encerrado em julho de 2026, com alta de 3,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Isso ajuda a explicar por que o recorde de endividamento não veio acompanhado, na mesma proporção, de um recorde de inadimplência.
Quando a renda cresce, mesmo em um cenário de dívida elevada, algumas famílias conseguem continuar honrando seus compromissos.
O problema é que o aumento da renda não elimina automaticamente o efeito de juros, inflação, novas dívidas e compromissos acumulados.
UMA CONTRADIÇÃO QUE MERECE ATENÇÃO
Os dados de 2026 revelam três movimentos simultâneos:
82% das famílias estão endividadas.
29,8% estão com dívidas em atraso.
19% comprometem mais da metade da renda com dívidas.
Esses números não são equivalentes e não devem ser somados ou tratados como se representassem o mesmo fenômeno.
Mas, juntos, eles mostram uma estrutura financeira bastante heterogênea.
Há famílias que possuem dívidas e pagam em dia.
Há famílias que possuem dívidas e estão atrasadas.
E existe um grupo cuja parcela da renda destinada ao pagamento de dívidas é particularmente elevada.
O QUE A SÉRIE HISTÓRICA REVELA
A principal conclusão que os números permitem tirar é que o endividamento das famílias deixou de ser um fenômeno pontual.
De 60,3% em 2018 para 82% em julho de 2026, a proporção aumentou 21,7 pontos percentuais.
O crescimento foi especialmente forte até 2022, quando a média anual chegou a 77,9%. Depois houve relativa estabilidade em níveis elevados e, em 2026, uma nova sequência de recordes mensais.
O Banco Central, por sua vez, também identifica um nível elevado de endividamento das famílias perante o sistema financeiro e relaciona parte da pressão sobre a capacidade de pagamento ao custo do crédito.
A QUESTÃO CENTRAL AGORA NÃO É APENAS "QUANTO AS FAMÍLIAS DEVEM"
A investigação dos números aponta para uma pergunta mais importante:
QUANTO DA RENDA DAS FAMÍLIAS ESTÁ SENDO CONSUMIDO PARA MANTER ESSAS DÍVIDAS?
O percentual de famílias endividadas mostra a dimensão do fenômeno.
A inadimplência mostra quantas estão atrasando pagamentos.
O comprometimento da renda mostra o espaço que sobra no orçamento depois que as dívidas são pagas.
E os juros mostram o custo de carregar esses compromissos.
É a combinação dessas quatro dimensões que permite compreender melhor a situação financeira das famílias brasileiras.
O recorde de 82% em julho de 2026, portanto, é apenas a parte mais visível de uma transformação que começou anos antes.
Por trás dele existe uma combinação de maior utilização do crédito, crescimento do número de tomadores, custo financeiro, comportamento da renda e capacidade desigual de pagamento.
E os próximos meses serão importantes para verificar se o recorde de 2026 representa apenas um novo patamar temporário ou a consolidação de um nível ainda mais elevado de endividamento das famílias.
FONTES
Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) — Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC).
Banco Central do Brasil — Estatísticas de endividamento e comprometimento de renda das famílias.
Banco Central — Dados de endividamento e comprometimento de renda
IBGE — PNAD Contínua, rendimento e mercado de trabalho.
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