A notícia de que o banqueiro André Esteves Vorcaro recebeu o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e um seleto grupo de políticos para um jantar em sua mansão não é apenas um registro social de alta classe. É, sobretudo, um retrato incômodo das engrenagens informais que operam nos bastidores do poder brasileiro — longe dos olhos da população e fora dos canais institucionais que deveriam pautar a relação entre os Poderes da República.
Em uma democracia madura, a separação entre interesses privados e funções públicas não é apenas um princípio abstrato: é uma necessidade vital. Quando um dos ministros mais poderosos do Judiciário — responsável por decisões que moldam eleições, políticas públicas e até o futuro de lideranças políticas — senta-se à mesa de um banqueiro bilionário ao lado de figuras do alto escalão político, a imagem transmitida à sociedade não é a de sobriedade republicana, mas a de promiscuidade institucional.
O problema não é o jantar em si. O problema é o que ele simboliza. A proximidade entre magistrados, políticos e grandes empresários cria um ambiente propício à naturalização de privilégios, à formação de pactos silenciosos e à corrosão do princípio da impessoalidade. Não é necessário que haja qualquer ilegalidade concreta para que o dano seja real: a simples aparência de favorecimento já mina a confiança pública — um dos pilares invisíveis, porém indispensáveis, do Estado Democrático de Direito.
Em um país marcado por históricos escândalos de corrupção, acordos de bastidores e captura do Estado por interesses privados, encontros como esse reacendem uma ferida que jamais cicatrizou. O cidadão comum, que enfrenta filas no SUS, impostos altos e um Judiciário distante, enxerga na cena uma elite que se move em um circuito próprio, onde as regras parecem mais flexíveis e o acesso, restrito a poucos sobrenomes e contas bancárias.
Além disso, quando membros do Judiciário passam a frequentar ambientes de ostentação e influência política, o tribunal deixa de parecer um árbitro imparcial e começa a ser visto como parte do jogo. A toga perde seu simbolismo de neutralidade e passa a carregar a sombra da conveniência, da amizade e da afinidade ideológica ou econômica.
Não se trata de acusar, mas de refletir. A democracia não morre apenas com golpes ou tanques nas ruas — ela também se enfraquece em jantares discretos, brindes silenciosos e portas fechadas. Cada encontro desse tipo é um pequeno tijolo retirado do muro que deveria separar o poder público do poder econômico.
Quando o poder janta em silêncio, quem paga a conta é sempre o cidadão.
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