Em palestra para empresários em um hotel
de luxo em São Paulo, o juiz Sérgio Moro rebateu na manhã desta
segunda-feira a crítica de que a Operação Lava-Jato estaria causando
prejuízos à economia, ao investigar as maiores empresas de
infraestrutura brasileiras e, com isso, paralisá-las.
— O policial que descobre o cadáver não é
o culpado do homicídio. Por mais que eventual impacto que a Operação
Lava-Jato tenha no curto prazo nas decisões de investidores, no longo
prazo esse enfrentamento da corrupção sistêmica traz ganhos a todos, às
empresas e à economia — disse, durante o evento “Exame Fórum”,
organizado pela Editora Abril.
O juiz citou o caso da obra da refinaria
de Abreu e Lima, em Pernambuco, cuja previsão inicial de custo era de
US$ 2 bilhões e alcançou US$ 18 bilhões, de acordo com dados oficiais.
— Havia previsão inicial da obra em
2010, mas ela não acabou em 2010, 11, 12 ou 13. O primeiro trem de
refino começou a funcionar em dezembro de 2014 — lembrou o juiz.
— Vejo com pesar essa situação econômica
de recessão e eventualmente alguém faz um comentário de que a
investigação dos crimes de corrupção tem uma parcela de culpa nisso. A
Lava-Jato não tem a ver com o que aconteceu com a refinaria de Abreu e
Lima. (…) Não foi a operação que fez a obra ter seus custos elevados —
argumentou.
Durante a palestra, Moro mencionou
custos diretos da corrupção. Lembrou que a Petrobras admitiu, no último
balanço, prejuízo de R$ 6 bilhões decorrente da elevação de custos em
função do pagamento de propina a agentes. E destacou custos indiretos
que considera “talvez até maiores que os diretos”, como a interferência
da propina no planejamento econômico de empresas e decisões de
investimentos de estatais, além dos prejuízos para a livre concorrência.
— Se os agentes não têm confiança de que
podem concorrer em condições iguais para obter contratos públicos, se
existe uma zona sombria de pagamento de propina que traz vantagens a
uns, isso gera severo impacto no regular funcionamento do mercado —
afirmou, mencionando também a perda de confiança de investidores e
cidadãos no funcionamento das instituições caso o combate à corrupção
cesse.
— Como país, não vamos conseguir
conviver com esse mundo cada vez mais competitivo. Os custos da
corrupção sistêmica fazem a gente andar para trás e esse quadro tende a
crescer se não for combatido — disse, afirmando que “ganhos futuros
serão maiores que os custos imediatos”.
Moro sugeriu que empresários criem, no
Brasil, entidade parecida com a formada por donos de empresas na Itália
na época da operação “Mãos Limpas”, que investigou a relação do crime
organizado com a política. O objetivo seria sensibilizar colegas e a
sociedade, em geral, para dizer não à propina.
O Globo
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