A professora de ciências Rosa Lúcia Carvalho, que dá aula para alunos
do 6º ano da Escola Municipal Manoel Henrique da Silva Barradas, em Ilha
Amarela, se viu obrigada a idealizar um plano de aula que tenha a
internet como ferramenta de pesquisa e realização de atividades.
O motivo da mudança após 15 anos como educadora foi uma nova realidade
presente em quase todas as escolas: os estudantes estão cada vez mais
conectados ao universo digital.
Apesar da boa vontade para elaborar conteúdo que se relacione com a
vida prática dos alunos, a falta de qualidade da conexão e de
capacitação foram alguns dos problemas que a professora enfrentou sempre
que tentou usar o laboratório de informática da escola, problema que
persiste até hoje.
"A realidade deles no que diz respeito à tecnologia é o universo
conectado com todas essas redes sociais", afirma Rosa Lúcia. "Não tem
como trabalhar sem trazê-los ao laboratório de informática porque a
lousa só não funciona mais", admite.
A professora da escola do subúrbio ferroviário de Salvador se encaixa
na regra quando o assunto é o uso de tecnologia para fins pedagógicos em
escolas públicas municipais e estaduais. No Brasil, 81% das escolas
públicas não têm internet rápida o suficiente para acessar conteúdos,
segundo dados da Fundação Lemann.
Articulação
As dificuldades são tantas que quatro entidades sem fins lucrativos -
Instituto Inspirare, Fundação Lemann, Rede Nossas Cidades e Instituto de
Tecnologia e Sociedade (ITS) - se juntaram para medir a velocidade
disponibilizada nas escolas públicas do país e cobrar providências dos
governos.
Foi criado assim o movimento Internet na Escola e um mecanismo para que
diretores ou professores de instituições públicas testem a velocidade
da conexão disponível. A medição é rápida e pode ser feita no site
www.internetnaescola.org.
No final da iniciativa, com os dados da pesquisa, as entidades vão
construindo o Mapa da Conectividade, documento que será entregue ao
governo federal identificando os problemas que precisam ser sanados e
onde eles estão concentrados.
Na Bahia, até agora, 31 escolas contribuíram com a ação participando da
medição. Cinco delas são estaduais e 26 administradas pelos municípios,
como a Escola Municipal Manoel da Silva Barradas, onde Rosa Lúcia
Carvalho trabalha.
Problemas
A diretora da instituição, Jaqueline Mangueira, que também é professora
em uma escola estadual, afirma que a lentidão da conexão
disponibilizada no local é "assustadora". Na última semana, por exemplo,
ficaram três dias sem acesso, por problemas técnicos.
Quando o sinal está funcionando, porém, a situação não é tão diferente.
"Para baixar um vídeo, uma música, um filme para exibir em sala de
aula, precisamos ter paciência porque demora muito tempo", conta a
diretora. "No tempo em que podemos produzir quatro aulas, fazemos uma
só".
O problema, diz Jaqueline, desestimula alunos e professores. Em vez
de atrair a atenção, como planejado, afasta os estudantes.
No Colégio Estadual Governador Roberto Santos, no Cabula, a demanda de
atividades administrativas somada à inauguração de uma rádio online
produzida por um grupo de alunos vai gerar problemas de conexão.
Demanda
É o que calcula o diretor da unidade, Adson da Silva, que já pediu à
Secretaria da Educação (SEC) um pacote de internet específico para o
novo projeto, que será lançado na próxima quinta-feira.
Atualmente, conta o diretor, a utilização pedagógica da conexão já não é
tão ampla. Resume-se, segundo ele, a pesquisas dos alunos do ensino
médio regular. Além disso, estudantes do curso técnico em contabilidade
usam programas de edição de texto e planilhas.
"Para um colégio tão complexo, com demandas administrativas,
publicações de notas online e a inauguração da rádio-web, a velocidade
devia ser maior. É preciso uma conexão independente", diz Adson da
Silva.
Ele destaca que, com as tecnologias, professores precisam conscientizar
os alunos sobre o que é permitido na internet e o que é considerado
inadequado.
Yuri Silva e Adriane Primo
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