Queda na venda de smartphones, redução
no número de linhas móveis em funcionamento e inadimplência crescente. A
crise econômica chegou até na telefonia, setor que crescia
ininterruptamente desde 2000. Após quase quadruplicar seu faturamento
nos últimos 14 anos, as empresas de telecomunicações devem amargar neste
ano um recuo na receita de 3,8% a 6%. A previsão foi feita a pedido do
GLOBO pela Orion Consultores, que estima redução nos negócios de R$
234,1 bilhões, no ano passado, para algo entre R$ 220 bilhões e R$ 225
bilhões até dezembro. Hoje, o setor, diz a associação Telebrasil,
responde por 4,2% do Produto Interno Bruto (PIB).
Segundo especialistas, não há pacote de
velocidade rápida na internet que resista ao atual momento da economia,
com inflação de 8,89% em 12 meses até junho, desemprego em alta, queda
de 2,9% na renda real e aumento de juros. Diante desse cenário
desfavorável, as empresas estão fazendo o que podem para (tentar)
driblar a crise: descontos de até 50% no preço de celulares, planos
promocionais e parcelamento das contas em atraso para não perder
clientes.
— Setores como o de telefonia estavam
conseguindo se manter em patamar de crescimento por terem sensibilidade
menor às variáveis econômicas. Antes, o dólar alto e a inflação afetavam
o custo das empresas; agora, o desemprego e a menor renda começam a
afetar os serviços de telefonia — diz Jason Vieira, economista-chefe da
Infinity Asset Management.
Assim, a queda do faturamento vem
acompanhada de redução no Ebitda (o lucro antes de serem descontados
impostos e juros). Segundo Ronaldo Sá, da Orion, o número deve cair
3,5%, de R$ 36,7 bilhões, em 2014, para R$ 35,4 bilhões neste ano.
Como indicativo, diz Sá, está o recuo no
número de linhas em serviço. Segundo a Agência Nacional de
Telecomunicações (Anatel), o país perdeu em junho 1,7 milhão de linhas,
somando 282,4 milhões. A queda de 0,6% foi a maior desde junho de 2006,
quando recuou em 0,67%.
MAIS INADIMPLÊNCIA E QUEDA NAS VENDAS
Mas os números tendem a piorar. Entre as
operadoras, a curto prazo predomina uma visão pessimista. O terceiro
trimestre vem sendo chamado de “fundo do poço do setor” pelos executivos
de teles. Redes varejistas e fabricantes de celulares devem fechar o
ano com recuo inédito nas vendas de smartphones. A previsão, diz a
consultoria IDC, é de queda de 2%. Por isso, até os badalados iPhone 6 e
Galaxy S6 se renderem aos descontos.
Por trás da piora nos números, está a
inadimplência no setor. Após aumentar em 39,5% de janeiro a abril, na
maior alta desde 2013, o número de clientes com contas em atraso vai
continuar subindo até o fim do ano, adianta Julio Leandro,
Superintendente do Serasa Consumidor. Segundo ele, o setor ficou na
dianteira do ranking, deixando para trás os segmentos de varejo,
bancário e não bancário.
— Esse estudo é baseado nas informações
repassadas pelas operadoras. A inadimplência maior está ligada ao
emprego. Esperávamos uma alta, mas nos surpreendemos. E o serviço de
telecomunicações não é tão básico como alimentação. Por isso, as pessoas
deixam de pagar primeiro. O que já está difícil, vai piorar — prevê
Leandro.
Ronaldo Sá, da Orion, destaca que os
clientes de cartão pré-pago são os mais afetados neste primeiro momento,
já que têm renda menor:
— Agora, vamos ver isso no pós-pago. O
problema é a inadimplência que chegou a 1,8% da receita das operadoras
móveis. E vai aumentar nos próximos trimestres.
Por isso, as operadoras vêm recorrendo a
negociações com os clientes em atraso. Bernardo Kos Winik, diretor de
Varejo da Oi, diz que a companhia tem sido mais seletiva na análise de
crédito:
— Estamos sendo flexíveis, parcelando a
conta em atraso para não perder o cliente. Também estamos investindo na
melhora do sistema de cobrança. O desafio é não encolher neste ano. Por
isso, estamos investindo em promoções nos nossos planos de convergência,
que permitem economia de até 20% em relação ao valor caso o cliente
contratasse os serviços de forma isolada. O dinheiro está mais curto.
Para George Dolce, vice-presidente da
Nextel, a empresa decidiu criar novos planos promocionais porque os
clientes estão buscando soluções para economizar.
— O nosso setor vinha imune à crise e,
de um tempo para cá, sentimos essa desaceleração. A renda disponível
está menor. Houve outros fatores como o aumento da energia elétrica, que
onerou todo mundo. Por isso, tivemos de nos ajustar às novas
necessidades, criando novos planos e aumentando o parcelamento de
aparelhos, para até 24 vezes — afirma Dolce.
A Claro decidiu estender o parcelamento
dos aparelhos mais caros para 24 parcelas. Até nos planos pós-pagos mais
simples, de R$ 100 por mês, o aparelho 4G sai de graça. Segundo Ricardo
César, Diretor de Unidades Regionais da Claro, os clientes estão
otimizando seus recursos.
— Em todos os planos pós-pagos,
ampliamos a franquia de internet, que chegou a dobrar, mas mantivemos o
mesmo preço. No caso do pré-pago, mantivemos o valor e aumentamos em 50%
a franquia de dados — exemplificou César.
IPHONE ENTRA NA GUERRA DO DESCONTO
Na TIM, diz Rogério Takayanagi, diretor
da empresa, a opção foi criar novos planos e ofertas para “quem está com
o orçamento limitado”. Por isso, a empresa decidiu não descontar da
franquia o uso de redes sociais como o WhatsApp no plano pós-pago.
— A população está preocupada em
proteger seus gastos. O desafio é adequar o portfólio em um momento de
consumo crescente de dados e renda em baixa.
Essa menor renda disponível derrubou a
expectativa de venda de celulares. Se em 2014 foram vendidos 54,5
milhões de smartphones, para este ano o volume pode chegar a 53 milhões
de unidades, prevê Leonardo Munin, analista de pesquisas da IDC. Assim, o
varejo investe em promoções, com descontos de até 48%. É o caso do LG
L8, na Americanas.com, cujo preço caiu de R$ 859 para R$ 443,33. No Fast
Shop, o iPhone 6, da Apple, está 10,72% mais barato (passou de R$ 3,499
mil para R$ 3,123 mil), e o Galaxy S6, da Samsung, que caiu de R$ 3,299
mil para R$ 2,723 mil, queda de 17,4%. Munin ressalta que o número
final de vendas dependerá do desempenho da Black Friday e do Natal:
— O cliente só vai comprar o que o bolso aceita e não o que deseja.
O Globo
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