Passava das dez da noite da terça-feira
(24), plenário do Senado praticamente vazio. Em um canto, Renan
Calheiros dava uma entrevista informal a um pequeno grupo de
jornalistas. Na outra ponta, depois de se despedir do colega Walter
Pinheiro (PT/BA), o senador Delcídio Amaral, líder do governo, ao ler a
manchete do Fato Online de que haveria uma reunião secreta da 2ª Turma
do Supremo Tribunal Federal, ficou lívido. Chamou seu chefe de gabinete.
“Olha aqui, Diogo. F….”. Hoje de manhã, Delcídio e Diogo Ferreira foram
presos, por ordem do Supremo.
Na noite de terça, Delcídio, abalado,
parecia antever o que aconteceria. “ Só faltava isso para fechar esse
dia infernal”. Ele tinha bons motivos para se lamentar. Havia marcado um
café naquela manhã com o empresário Maurício de Barros Bumlai, no hotel
Golden Tulip, com o propósito de dar uma força para o pai dele, o
empresário José Carlos Bumlai, que estava em Brasília para depor na CPI
do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
Delcídio telefonou para Maurício.
Atendeu uma voz desconhecida, dizendo que ele estava ocupado e não
poderia falar. “Acho que era um policial”. Logo depois, ele recebeu um
whatsapp de um informante, que estava hospedado no quarto ao lado do
ocupado por Maurício. A mensagem o assustou: José Carlos Bumlai estava
sendo preso e seria levado para Curitiba, e os filhos Maurício e
Guilherme obrigados a prestar depoimentos na Superintendência da Polícia
Federal em Brasília.
Delcídio integra uma espécie de gabinete
de crise do ex-presidente Lula para acompanhar a Operação Lava-Jato.
Eles se encontram toda semana em Brasília ou São Paulo. Sua principal
missão era monitorar o ex-diretor Internacional da Petrobras Nestor
Cerveró para evitar estragos maiores caso ele fechasse uma delação
premiada. Cerveró foi indicado por Delcidio para a diretoria na
Petrobras. O advogado Edson Ribeiro fazia a ponte entre Delcidio e
Cerveró. Ribeiro também foi preso hoje. O motivo foi a pressão para
Cerveró não contar tudo o que sabe.
Há semanas, quando o cerco a Bumlai
começou a fechar, com a divulgação da delação premiada do lobista
Fernando Baiano, o entorno do ex-presidente Lula espalhou que, mais uma
vez, ele se sentia traído. A notícia atordoou Delcídio. Bumlai é seu
conterrâneo e amigo. Pelas mãos dele e do ex-governador Zeca do PT, em
2002, o pecuarista se aproximou e se tornou parceiro de Lula, inclusive
em churrascos e pescarias. Delcídio convenceu Lula a não hostilizar
Bumlai, com o receio de que, acuado, ele também faça uma delação
premiada.
Na quinta-feira (12), Lula teve novo
encontro com Delcídio. Estava tenso. Havia sido informado de que o
empresário Salim Taufic Schain, um dos donos do grupo Schain, havia
prestado um depoimento bombástico para a força-tarefa da Operação
Lava-Jato sobre as negociações com José Carlos Bumlai. No depoimento,
ele falava sobre negociatas para o pagamento de despesas da campanha de
Lula e comprometia o PT, o ex-ministro José Dirceu e os ex-tesoureiros
do partido Delúbio e João Vaccari.
Depois da prisão de Bumlai, Delcídio
agendou para amanhã uma nova conversa com Lula em São Paulo. Por motivo
de força maior, não comparecerá. A dúvida é se Delcídio, que sabe muito,
pode ser tornar um novo réu colaborador.
Fato Online
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