“Não há nenhuma prova de que o
ex-Presidente da República estivesse de fato envolvido nesses ilícitos,
mas o comportamento recorrente do investigado José Carlos Bumlai levanta
o natural receio de que o mesmo nome seja de alguma maneira, mas
indevidamente, invocado para obstruir ou para interferir na investigação
ou na instrução”, aponta o magistrado na decisão.
Moro ainda faz referência às delações
premiadas do lobista Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, na
qual ele cita que o pecuarista teria utilizado várias vezes o nome do
ex-presidente para intermediar em negócios. De acordo com o juiz, Bumlai
“teria se servido, por mais de uma vez e de maneira indevida, do nome e
autoridade do ex-presidente da República para obter benefícios”.
Além do magistrado, o procurador da
República, Carlos Fernando dos Santos, disse, em entrevista na sede da
PF, em Curitiba, que não é possível calcular o envolvimento de Lula nas
operações financeiras. “Havia o uso do nome do ex-presidente, mas até o
momento, em nossos levantamentos não houve alguma intercessão, apenas
ouvimos nos depoimentos que as ordens vinham de cima”, comentou.
‘Episódios criminosos’
Ao mesmo tempo em que aponta a falta de
provas do envolvimento do ex-presidente, o juiz da Lava Jato destaca o
papel decisivo do pecuarista em “episódios criminosos” envolvendo o PT.
“João Carlos Bumlai se insere totalmente
nesse quadro, pois as provas indicam que disponibilizou seu nome e suas
empresas para viabilizar de maneira fraudulenta recursos a partido
político, com todos os danos decorrentes à democracia, e,
posteriormente, envolveu-se na utilização de contrato público de empresa
estatal para obter vantagem indevida para si e para outrem”, escreveu.
Prisão cautelar
Sérgio Moro considerou a prisão do
pecuarista José Carlos Bumlai, alvo central da Operação Passe Livre,
deflagrada nesta terça-feira, 24, necessária dentro de um contexto de
corrupção sistêmica e profunda.
“Excepcional no presente caso não é a
prisão cautelar, mas o grau de deterioração da coisa pública revelada
pelos processos na Operação Lava Jato, com prejuízos já assumidos de
cerca de seis bilhões de reais somente pela Petrobras e a possibilidade,
segundo investigações em curso no Supremo Tribunal Federal, de que os
desvios tenham sido utilizados para pagamento de propina a dezenas de
parlamentares, comprometendo a própria qualidade de nossa democracia”,
escreveu Moro, em sua decisão de prisão de Bumlai.
“Embora as prisões cautelares decretadas
no âmbito da Operação Lava Jato recebam pontualmente críticas, o fato é
que, se a corrupção é sistêmica e profunda, impõe-se a prisão
preventiva para debelá-la, sob pena de agravamento progressivo do quadro
criminoso”, diz Moro, em decisão do dia 19.
“Se os custos do enfrentamento hoje são
grandes, certamente serão maiores no futuro. O país já paga, atualmente,
um preço elevado, com várias autoridades públicas denunciadas ou
investigadas em esquemas de corrupção, minando a confiança na regra da
lei e na democracia.”
Para o juiz da Lava Jato, a liberdade de
Bumlai representaria um “risco à ordem pública”. A força-tarefa da Lava
Jato avança na comprovação de que partidos e políticos se valeram do
esquema sistematizado de corrupção no governo.
Isto É, com Estadão
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