O governo está falando em
reforma administrativa e redução de ministérios. Tomara que seja a sério
e não para conseguir algum noticiário positivo neste turbilhão de más
notícias em que vive imerso. Se quiser fazer uma reforma, terá motivo e
forma de fazer. Dá para cortar, no mínimo, 18 ministérios. Isso
diminuiria custos com a sua estrutura e ainda daria alguma esperança.
Nem tão poucos ministérios, como no
governo Afonso Pena, quando o Brasil era menor e bem menos complexo, nem
tantos que tornem o governo mastodôntico e disfuncional. Imagine uma
reforma racional, sem levar em considerações outras questões.
Os ministérios da Aviação Civil e dos
Portos ficariam, claro, dentro de Transportes, onde sempre ficaram. O de
Relações Institucionais iria para a Casa Civil, que sempre teve a
função de fazer a articulação política. É claro que não precisa de um
Ministério da Integração Nacional e outro de Cidades. Pode-se ter um só
que tenha uma secretaria de assuntos urbanos. Desenvolvimento Agrário
pode ficar dentro da Agricultura, como sempre ficou, onde também ficaria
a Pesca e Aquicultura. O dedicado às micro e pequenas empresas foi
invenção recentíssima apenas para dar um cargo ao partido de Gilberto
Kassab. Pode ficar dentro do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e
Comércio. O do Turismo pode ser extinto e suas funções serem exercidas
pela empresa estatal que cuida de turismo, a Embratur, como era
anteriormente.
Faz sentido ter um Ministério do
Planejamento e um Ministério de Assuntos Estratégicos? Alguém faz
planejamento sem pensar em questões estratégicas? No primeiro mandato,
esse ministério só serviu para produzir estudos para alavancar a
propaganda do governo. No atual, está criando uma duplicidade com o
Ministério da Educação. Já conversei com pessoas que me disseram
constrangidas por serem chamadas para conversar com o ministro de
assuntos estratégicos sobre temas que deveriam ser assunto na Educação.
Em que os esportes do Brasil melhoraram desde que o assunto saiu da
pasta da Educação? É outro que pode ter suas funções mais bem alocadas.
O tema Direitos Humanos é caro para
todos, mas por que tem que se dividir em três ministérios? Direitos
Humanos, das Mulheres e da Igualdade Racial. O governo costuma dizer que
não se poderia extinguir os ministérios porque esses temas são
importantes. Claro que são. Vários outros. Mas criar um ministério não é
a única forma de dizer que os temas são importantes. Se isso fosse
verdade, não haveria um acampamento dos Sem Terra bem na parte mais
visível de Brasília. Afinal, o PT assumiu defendendo a reforma agrária
há 12 anos, e criou-se um ministério para isso.
Não precisam ter status de ministério a
Secretaria-Geral da Presidência, a Secretaria de Comunicação Social da
Presidência, o Banco Central, a Advocacia-Geral da União, a
Controladoria-Geral da União.
Já ouvi no governo, quando falei da
necessidade urgente de redução do número de ministérios, que não se
economizaria muito. Mas seria um bom choque de gestão, para começo de
conversa. Ajudaria também a cortar cargos de nível alto de
assessoramento, uso de aviões da FAB, carros oficiais e muita empáfia.
Outro dia vi um ministro, desses de função inespecífica, andando por um
aeroporto cercado de assessores como se fosse um vice-rei. Mesmo se a
economia fosse pequena, o governo ficaria mais funcional e uma reunião
ministerial poderia ser uma reunião de trabalho e não um comício.
A presidente da República pode fazer
muita dessa reorganização por decreto. Mas não fará nada na dimensão
necessária porque cristalizou-se a ideia de que uma coalizão só funciona
se todos os partidos, e suas facções, estiverem contempladas em cargos
de ministros. Que é uma prática necessária para garantir a
governabilidade. Isso é balela. Essa ocupação da máquina pelos partidos e
seus indicados só tem feito mal aos contribuintes, aos funcionários
realmente dedicados ao serviço público e ao próprio governo. Tem sido
também o caminho para o desvio, as negociatas, as propinas. Os partidos,
ao assumirem os ministérios, não têm plano algum para aquela pasta. Não
querem influenciar nas políticas públicas, querem criar um gueto só
seu. Uma capitania. Esse é o começo da distorção.
Míriam Leitão, O Globo
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