domingo, 7 de setembro de 2025

Hospital dos Pescadores registra três mortes em dois dias em meio a falhas na escala médica da Justiz

 UTI ficou sem médico por até 16 horas seguidas; profissionais relatam exaustão e denunciam risco iminente à vida dos pacientes.

O Hospital dos Pescadores, em Natal, viveu uma das semanas mais dramáticas dos últimos meses. Em apenas dois dias, três pacientes morreram na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), em meio a denúncias de sobrecarga de médicos e falhas graves na assistência. Todos os episódios foram registrados no livro de ocorrências da unidade.

A responsabilidade pelas escalas é da empresa Justiz Terceirização, contratada emergencialmente pela Prefeitura de Natal para assumir parte da rede municipal de saúde. Desde 1º de setembro, quando passou a responder integralmente pelos plantões dos lotes que venceu no certame, a empresa tem enfrentado dificuldades para manter equipes completas, mergulhando o hospital em um cenário de colapso.

Plantões de até 70 horas e UTI sem médico

Relatos de profissionais revelam uma realidade alarmante: um médico teria cumprido 70 horas consecutivas de plantão para suprir a falta de colegas. Em outro episódio, a UTI ficou sem cobertura médica das 7h às 23h, deixando pacientes em estado grave sem avaliação de um intensivista durante 16 horas.

Apesar das denúncias, a Justiz insiste em divulgar escalas completas e filas zeradas, informações que, segundo trabalhadores, não correspondem à rotina da unidade.

Outro ponto de preocupação é a atuação do médico responsável pela UTI, que também exerce função de diarista. Mesmo ocupando posição estratégica, ele não estaria realizando as visitas diárias aos pacientes internados, ampliando as falhas no acompanhamento clínico.

Profissionais exaustos e clima de insegurança

Médicos e enfermeiros relatam exaustão e admitem sentir medo diante da precariedade no atendimento. “O risco é iminente, não só para quem está internado, mas também para quem precisa de uma vaga”, disse um profissional que pediu anonimato.

Familiares de pacientes também se mostram apreensivos. “A gente não sabe se vai ter médico no próximo plantão. É uma insegurança constante”, relatou a filha de um paciente internado na UTI.

Substituição da Coopmed agrava crise

A crise é reflexo direto da mudança na gestão médica da rede. Desde a última segunda-feira, a Coopmed/RN deixou de prestar serviços, dando lugar às empresas Justiz e Proseg, contratadas emergencialmente por R$ 208 milhões para atuar durante um ano.

O processo foi contestado por parte da categoria. Muitos médicos que atuavam pela cooperativa se recusam a assinar contrato com as novas empresas, alegando cláusulas abusivas e falta de garantias. A resistência tem provocado buracos nas escalas de hospitais e UPAs.

Conflito entre sindicato e prefeitura

O cenário elevou a temperatura na relação entre o Sindicato dos Médicos do RN (Sinmed) e a Prefeitura de Natal. O presidente do Sinmed, Geraldo Ferreira, acusa o secretário municipal de Saúde, Geraldo Pinho, de defender interesses das terceirizadas e perseguir profissionais que resistem à adesão.

O secretário reagiu. Classificou Ferreira como um “ditador sindical” e disse que ele tenta manter influência política após a saída da Coopmed, entidade que ajudou a fundar e presidir.

Investigação em andamento

Diante das denúncias, o Ministério Público do Rio Grande do Norte acompanha os contratos emergenciais e apura as falhas no atendimento. O órgão também busca garantir segurança jurídica para médicos que migraram de vínculo, após o fim do contrato com a cooperativa.

Enquanto os embates jurídicos e políticos se arrastam, a realidade no Hospital dos Pescadores é de luto e apreensão. Três mortes em dois dias acendem um alerta sobre a fragilidade da gestão emergencial e expõem, mais uma vez, os limites de um sistema de saúde já à beira do colapso.


FONTE: AGORA RN

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