O indicativo de que o Federal
Reserve, o banco central americano, vai dar início ao aumento da taxa
básica de juros nos Estados Unidos, em dezembro, reduzirá a “goleada”
que o Brasil vem dando em todos os países desde que o Banco Central
começou a elevar a Taxa Selic, no final de 2012. A provável decisão do
Fed, que tanto agrada aos especuladores, remete ao encontro anual do
Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, realizado em Lima, no
Peru, entre os dias 8 e 11 de outubro.
Nos quatro dias do evento, diversos
gestores de fundos de investimento globais usaram a Copa do Mundo para
brincar com qualquer brasileiro que estivesse pela frente: “O placar de 7
a 1 da Alemanha foi muito bom, mas o 14 a 0 do Brasil é espetacular”,
relataram aqueles que cansaram de ouvir essa comparação. A imagem
figurativa serviu para lembrar que os títulos públicos brasileiros pagam
14,25% ao ano, enquanto os americanos não pagam nada. É um excelente
prêmio para deixar o dinheiro quietinho, com risco baixo no longo prazo.
Se a presidente Janet Yellen confirmar o
que o relatório do Fed aponta nas entrelinhas, parte dos recursos que
estão depositados no Brasil tendem a migrar para os EUA. Há quem duvide
de uma saída em massa. E faz sentido. Embora a crise institucional
brasileira embace a visão de curto prazo, parece inconcebível que o
risco de calote do País só seja menor que o de Ucrânia e Venezuela, que
estão a milhares de pontos de distância, segundo o indicador Credit
Default Swap (CDS), do Deutsche Bank. Egito, Casaquistão e Turquia
estão, para os credores, numa situação menos perigosa que a dos títulos
brasileiros.
Aquela alusão dos estrangeiros
ao futebol reforça que o País continua cheio de atrativos. A comparação
entre os placares abria espaço para uma conversa incomum há alguns anos:
saber, com riqueza de detalhes, a situação brasileira. Não um
resumo das ações do ministro Joaquim Levy, que são fartamente
divulgadas, mas a sensibilidade sobre o clima político. O motivo é que
ninguém quer reduzir o risco dos ativos brasileiros em suas carteiras de
investimento, porque elas já foram rebalanceadas nos últimos 18 meses.
Muitos estão com menos Brasil do que gostariam ou poderiam (conforme as
políticas de alocação para países sem grau de investimento).
A tentativa é descobrir quando aquela
escuridão dará lugar à luz. Assim que o gatilho da melhora espocar,
muitas ações que estão com um prêmio-risco atrativo entram no alvo. O
recado de Lima é que os estrangeiros não querem perder esse trem de
valorização, que uma hora embala. O sinal que vem de fora serve de
alerta para os brasileiros – principalmente para os que estão à procura
de alguma barbada nos investimentos. A situação do Brasil continua
delicada, com as contas públicas no fio da navalha e o ajuste fiscal sob
ameaça.
Por isso, quem estiver com uma
calculadora em mãos e começar a brincar de montar uma carteira na bolsa
vai encontrar uma cesta enorme de empresas muito baratas. Antes de sair
comprando o que tiver pela frente, lembre que é um momento em que não
existem fundamentos definidos que garantam que barato é barato mesmo. Os
tubarões estão famintos no mar à espera dos peixes pequenos. Os
especuladores podem arriscar no curto prazo para colher lá na frente,
afinal, quem leva goleada é sempre o time mais fragilizado.
ISTO É
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