Um cartão-postal do inferno se desenha
para o próximo verão. Ele mostra uma colossal mancha vermelha no Oceano
Pacífico e representa, segundo as agências climáticas dos Estados Unidos
e da Austrália, o fortalecimento do El Niño, o fenômeno que semeia
seca, calor e tempestade planeta afora. Dizem as agências, pode ser o
mais avassalador em 50 anos. Se estiverem certos, um super El Niño. A
mancha vermelha sinaliza o aquecimento anormal da água do Oceano
Pacífico, marca registrada do El Niño. No Brasil, pesquisadores
discordam e não acreditam que ganhará tanta potência. Mas o fato é que
ele já está entre nós.
Há sinais do El Niño nas chuvas
torrenciais que desde abril castigam o Sul do Brasil. A única coisa boa
do saco de maldades de dimensões planetárias do “menino do tempo” foi
tirar do sufoco hidroelétricas do Sul do Brasil. Mas as benesses param
aí. Já começa a chover demais para a agricultura. E junto com os
períodos de chuva prolongada vieram algumas das piores tempestades dos
últimos anos na região.
CHUVA EM VEZ DE FLORES
O exemplo mais notório é o tornado que
arrasou a cidade de Xanxerê, em Santa Catarina, em 20 de abril. Uma
análise recém-concluída pelo coordenador do Programa de Pós-Graduação em
Meteorologia da Universidade Federal de Santa Maria (RS) Ernani
Nascimento, um dos maiores especialistas em tempo severo do país, indica
que os ventos chegaram a 260 km/h, o que coloca o tornado de Xanxerê
como um dos mais violentos já registrados no Brasil, atrás apenas do de
2005 em Indaiatuba, São Paulo.
No Brasil, o El Niño afeta
principalmente as regiões Sul, com chuvas torrenciais, e Nordeste, com o
agravamento da seca. Ele também costuma elevar as temperaturas de forma
geral em boa parte do Brasil. Invernos quentes, primaveras tórridas e
verões absolutamente escorchantes.
O Sul costuma ser afetado primeiro. A
seca no Nordeste vem depois, numa tentativa do planeta em se
reequilibrar. No Sudeste, uma zona de transição, o cenário é incerto. Só
quando entrar setembro — e, com ele, não as flores, mas as chuvas da
primavera —, será possível saber se continuará a seca que atormentou a
região este ano e no ano passado.
UM ESCUDO QUE NINGUÉM QUER
Tudo indica que sim, segundo o
climatologista José Marengo, chefe de pesquisa do Centro Nacional de
Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Até agora, as
chuvas não ajudaram muito o Sudeste, e o Sistema Cantareira continua em
14,6%, ou seja, abaixo do volume morto, mostram medições da Unesp.
Todavia, frisa Marengo, o calor e a seca
anômalos não se devem propriamente ao El Niño, mas a fatores como o
aquecimento simultâneo do Atlântico e do continente — fenômeno que já
acontece e não dá mostras de que vá arrefecer. Esse aquecimento produz
área de alta pressão, um escudo indesejado contra frentes frias e, dessa
forma, chuvas. Marengo não vê motivos para acreditar que este El Niño
será o pior das últimas décadas. Mas reconhece que ele poderá agravar o
que já está ruim.
— Os verões e os invernos estão ficando
mais quentes, uma provável consequência das mudanças climáticas globais.
Há dias de frio extremo no inverno, mas são pontuais. A tendência é de
elevação da temperatura. E, se você colocar um El Niño, fica mais quente
ainda — explica.
Nos últimos dias, a Administração de
Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (Noaa, na sigla em inglês) e o
Serviço de Meteorologia da Austrália emitiram boletins com alertas sobre
a possibilidade de o atual El Niño se intensificar e permanecer
significativamente ativo até o fim da primavera de 2016 no Hemisfério
Norte (outono no Brasil). Isso o tornaria especialmente longevo.
— El Niños costumam durar cerca de um ano e aí começam a perder força — observa o climatologista do Inpe Manoel Gan.
A professora de meteorologia da UFSM
Nathalie Tissot Boiaski, que estuda o El Niño no Brasil e tem
acompanhado as tempestades deste ano, observa que o fenômeno começou em
novembro do ano passado. O que causa apreensão é a possibilidade de ele
continuar a se intensificar.
— Este El Niño tem mostrado tendência de
continuidade. No fim de julho, completamos cinco meses de elevação de
cerca de 1 grau Celsius no Pacífico. Vimos fenômenos mais intensos, como
os de 1982/83 e 1997/98. Mas isso não significa que este não será
poderoso. Porém, temos que esperar — afirma.
Ela diz que é cedo para saber como
ficará o Sudeste. O Inpe deve reunir esta semana especialistas para
fazer as previsões para os próximos meses. O foco é o início da estação
chuvosa no Sudeste, que costuma começar em outubro.
— Se ela atrasar, teremos consequências
para os reservatórios. Não choverá o suficiente para reverter os efeitos
dos últimos anos — alerta Marengo.
Manoel Gan orienta o desenvolvimento de
um modelo para identificar padrões de clima. A meta é prever com
acurácia como será o tempo ao longo do ano. Um instrumento necessário
para alertar, com meses de antecedência, sobre períodos extremamente
secos ou chuvosos.
CAÇADORES DE TORMENTAS
A primavera é esperada com expectativa
por caçadores de tempestades — grupos que percorrem o Sul do Brasil em
busca de fotos e registros de eventos extremos, em especial tornados.
Acácio Cordiolli, um dos fundadores do Stormaringá, um dos grupos mais
ativos, está ansioso pela chegada da estação, sabidamente instável.
— Esse El Niño já deu demonstrações de
que não está de brincadeira. Nossa aposta é que a próxima temporada de
tempestades, que começa na primavera e vai até o fim do verão, será
intensa. E, para quem gosta, espetacular — afirma Acácio, que mora em
Maringá, no Oeste do Paraná, um dos lugares com maiores ocorrências de
grandes tormentas no país.
O Globo
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