Foto: Divulgação
Natal/Mossoró (RN) – A Operação Mederi, deflagrada na manhã desta terça-feira (27) pela Polícia Federal, trouxe à tona um esquema estruturado de fraudes em licitações, pagamento sistemático de propinas e desvio de recursos públicos na área da Saúde em Mossoró e em outros municípios do Rio Grande do Norte. As investigações colocam no centro das apurações o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União Brasil), que foi alvo de mandado de busca e apreensão cumprido em sua residência.
De acordo com a PF, diálogos interceptados judicialmente entre empresários do setor farmacêutico descrevem com riqueza de detalhes o funcionamento do esquema e indicam a existência de percentuais previamente definidos que seriam destinados a agentes políticos, entre eles o prefeito. As conversas embasaram decisão judicial assinada pelo desembargador federal Rogério Fialho Moreira, que autorizou as medidas da operação.
Em um dos diálogos, atribuído ao empresário Oseas Monthalggan, sócio da distribuidora de medicamentos DISMED, é apresentada a chamada “matemática de Mossoró”, expressão utilizada para explicar a divisão dos valores supostamente desviados:
“Tem uma ordem de compra de quatrocentos mil. […] Ele entrega duzentos, tudo a preço de custo.Dos duzentos, ele pega trinta por cento. Sessenta. Aqui ele comeu sessenta mil.”
Segundo a Polícia Federal, o contexto das conversas indica que a referência feita como “ele” diz respeito ao prefeito de Mossoró. Em outro trecho interceptado, o empresário detalha a divisão final dos valores e cita nominalmente o gestor:
“Dos 130 nós temos que pagar 100 mil a Allyson e a Fátima, que é 10% de Fátima e 15% de Allyson. Só ficou 30 mil pra empresa.”
Para a PF, “o contexto geral das conversas deixa claro que o ‘Allyson’ mencionado é o prefeito de Mossoró”, afastando, segundo os investigadores, qualquer possibilidade de ambiguidade.
Percentuais fixos e linguagem cifrada
Outro diálogo interceptado reforça a suspeita de que havia percentuais fixos destinados ao prefeito. Em escuta ambiental realizada nas dependências da DISMED, Oseas volta a tratar da divisão da propina:
“Quinze do homem e dez disso aí, vezes vinte e cinco por cento.”
De acordo com a Polícia Federal, a expressão “o homem” seria uma referência indireta a Allyson Bezerra, utilizada de forma velada. A repetição do termo e o contexto das conversas, segundo os investigadores, reforçam essa interpretação.
Em outra gravação citada nos autos, os sócios Oseas e Moabe fazem menção direta ao prefeito em tom acusatório. Em trecho atribuído a Oseas, consta a seguinte declaração:
“Ah, esse prefeito é ladrão, quem rouba é ele, pode falar, não me importa não!”
Estrutura do esquema
A PF e a Controladoria-Geral da União (CGU) apontam que a organização criminosa funcionava de forma hierarquizada. No topo estariam o prefeito Allyson Bezerra e o vice-prefeito Marcos Bezerra (PSD); em nível intermediário, secretários municipais e gestores administrativos, responsáveis por viabilizar os contratos; na base operacional, fiscais e gestores que atestavam entregas parciais ou inexistentes; e, externamente, empresários do setor privado responsáveis pela execução do esquema.
Segundo a CGU, “todas essas práticas ilícitas teriam sido encabeçadas pelo alto escalão das gestões municipais”.
A investigação também destaca indícios de que o prefeito teria consciência da ilegalidade das práticas. Em um dos diálogos, Oseas descreve o comportamento atribuído ao gestor:
“Os cara é um cuidado… não porque ninguém pode saber não.”
Para a PF, a fala indica que havia cautela deliberada para ocultar a participação no esquema, o que, segundo os investigadores, “é indicativo de conhecimento da irregularidade das práticas”.
Contratos e movimentação financeira
A empresa DISMED, apontada como pivô do esquema, firmou R$ 6,39 milhões em contratos com a Prefeitura de Mossoró entre 2024 e 2026. Conforme os autos, a empresa operava no prejuízo em 2023 e, em 2024 — ano eleitoral —, passou a registrar lucro superior a R$ 2 milhões, crescimento que, segundo a PF, decorre quase integralmente dos contratos públicos.
A investigação também chama atenção para a estrutura da empresa e para a figura de Maycon Lucas, então sócio da distribuidora, residente na zona rural de Serra do Mel, sem histórico no setor farmacêutico. Meses antes da operação, Maycon transferiu suas cotas para uma holding de sua própria titularidade, movimento interpretado como possível tentativa de blindagem patrimonial.
Desdobramentos
A Operação Mederi cumpriu 35 mandados de busca e apreensão, além de medidas cautelares e patrimoniais. Ao todo, 15 servidores públicos são investigados, entre secretários, chefes de gabinete e pregoeiros, em cinco municípios do estado. O prejuízo estimado aos cofres públicos é de R$ 13 milhões, envolvendo sobrepreço, não entrega de medicamentos, uso irregular de atas de registro de preços e dispensas emergenciais fraudulentas.
O que diz o prefeito
Em nota, Allyson Bezerra negou envolvimento pessoal nos fatos, afirmou que colaborou com a diligência e sustentou que a investigação se baseia em diálogos de terceiros. A Polícia Federal, por sua vez, afirma que as conversas interceptadas trazem referências nominais e indiretas reiteradas, percentuais definidos e descrição detalhada de um esquema estruturado de desvio de recursos públicos.
A investigação segue agora para o rastreamento do fluxo financeiro, com o objetivo de apurar quanto dos valores desviados permaneceu com os empresários e quanto teria retornado a agentes públicos.
Fonte: Diário do RN
Nenhum comentário:
Postar um comentário