Uma nova pesquisa publicada no Journal of Navigation, da Universidade de Cambridge, reacende um debate que atravessa décadas: a expedição de Pedro Álvares Cabral pode ter desembarcado primeiro no Rio Grande do Norte, e não em Porto Seguro, na Bahia, como registra a historiografia tradicional.
O estudo, assinado pelos físicos Carlos Chesman (UFRN) e Cláudio Furtado (UFPB), combina trechos da célebre carta de Pero Vaz de Caminha com dados sobre ventos, correntes marítimas e medições de profundidade. A partir desse cruzamento, os pesquisadores propõem que o primeiro contato da frota com o território brasileiro teria ocorrido nas regiões de Rio do Fogo, Zumbi e São Miguel do Gostoso, no litoral potiguar.
Segundo Chesman, foram analisados parâmetros descritos por Caminha — como datas, distâncias, características da costa e profundidades — e comparados com informações modernas. O resultado aponta que o “grande monte, mui alto e redondo” relatado na carta poderia ser o Serra Verde, em João Câmara, e não o Monte Pascoal, na Bahia. Já o rio onde as embarcações teriam lançado âncora seria o Punaú, que deságua na praia de Zumbi.
A partir desses cálculos e de expedições realizadas no litoral potiguar, os autores afirmam ter encontrado formações semelhantes às registradas pelo escrivão em 1500. Eles também calcularam a distância percorrida desde Cabo Verde — cerca de 4 mil quilômetros — que, segundo o estudo, corresponde melhor a uma rota que desembocaria no RN considerando ventos e correntes da época.
A tese, embora polêmica, não é inédita. Intelectuais potiguares como Luís da Câmara Cascudo já defendiam essa hipótese no século XX. A nova pesquisa, no entanto, busca reforçá-la com modelos matemáticos e ferramentas da física. Chesman afirma que a intenção é “reabrir a discussão” e aproximar o tema de historiadores. Um colóquio científico será realizado no RN no próximo ano para debater os resultados.
Apesar da repercussão, especialistas pedem cautela. A historiadora Ana Hutz, da PUC-SP, destaca que há vasta documentação que sustenta o desembarque em Porto Seguro, incluindo estudos náuticos como o do almirante Max Justo Guedes, referência sobre o tema desde 1975. Ela também critica a ausência desses trabalhos no artigo dos físicos.
A pesquisadora Juliana Gesueli, da PUC Campinas, pontua que mudanças em livros didáticos demandam evidências robustas e consensos científicos — processo que pode levar décadas. Ela ressalta que, independentemente da rota inicial, a ocupação portuguesa só se consolidou a partir da década de 1530, o que relativiza o impacto prático de uma alteração no ponto de chegada.
O debate está reaberto — e promete movimentar tanto cientistas quanto historiadores nos próximos anos.
AGORA RN
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