domingo, 2 de novembro de 2025

Entenda a origem do Comando Vermelho, alvo da megaoperação que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro

 

                                              Presídio de Ilha Grande — Foto: Reprodução/TV Globo

A megaoperação policial nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, reacendeu o debate sobre a violência e o poder das facções criminosas no estado. A ação, considerada uma das maiores da história fluminense, resultou em 121 mortes, sendo 117 suspeitos e quatro policiais, além de 113 prisões, 10 menores apreendidos e a apreensão de 118 armas — entre elas 91 fuzis — e mais de uma tonelada de drogas.

O alvo central das forças de segurança foi o Comando Vermelho (CV), a mais antiga e influente facção do tráfico de drogas no Brasil, com raízes que remontam ao sistema prisional da Ilha Grande nas décadas de 1970 e 1980.

Da prisão à facção: a gênese na Ilha Grande

O presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande — a cerca de 100 km da capital fluminense —, foi o berço do Comando Vermelho. O local, originalmente criado em 1963, tornou-se um ponto de convergência entre presos políticos da ditadura militar e criminosos comuns após o golpe de 1964.

No início dos anos 1970, o ambiente de opressão e superlotação levou à formação de alianças inesperadas. William da Silva Lima, conhecido como Professor, articulou a união entre os dois grupos sob uma espécie de pacto de sobrevivência e solidariedade dentro das muralhas do presídio.

Essa aliança deu origem à chamada Falange da LSN, em referência à Lei de Segurança Nacional — instrumento da repressão da época. Pouco tempo depois, o grupo passou a ser conhecido como Falange Vermelha, e posteriormente adotou o nome Comando Vermelho, em referência à cor associada à resistência e à ideologia revolucionária que inspirou parte dos presos políticos.

Relatórios penitenciários apontam que, a partir de 1979, a Falange Vermelha já exercia controle sobre o crime dentro do sistema prisional do Rio, organizando rebeliões, fugas e impondo uma espécie de “código de conduta” entre os detentos.

Do cárcere ao comando das favelas

A consolidação da facção fora dos muros ocorreu em 1980, quando uma fuga cinematográfica — que incluiu nomes como José Jorge Saldanha, o Zé Bigode — levou parte do grupo ao continente. A partir daí, o CV iniciou a ocupação de territórios nas favelas cariocas, financiando-se por meio do tráfico de drogas, assaltos e sequestros.

Entre os nomes mais emblemáticos da primeira geração da facção está José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, que ganhou notoriedade nacional ao fugir de helicóptero do presídio da Ilha Grande, em 1985 — episódio que simbolizou o avanço e a ousadia do grupo.

O presídio foi desativado e implodido em 1994, restando apenas ruínas, mas seu legado continua a influenciar a história da criminalidade no país.

O poder do Comando Vermelho e o desafio do Estado

Desde então, o Comando Vermelho tornou-se símbolo da expansão do crime organizado no Rio, dominando vastas áreas do território urbano e travando uma guerra contínua contra o Estado e facções rivais, como o Terceiro Comando Puro (TCP) e a Milícia.

A operação desta semana, que mobilizou centenas de agentes das polícias Civil, Militar e Federal, foi apresentada pelo governo fluminense como uma resposta direta à escalada de ataques e confrontos promovidos pelo CV nas últimas semanas.

Críticos, porém, apontam excessos, violações de direitos humanos e falta de transparência nas ações, o que já levou o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio do ministro Alexandre de Moraes, a determinar a preservação integral das provas e convocar uma audiência pública com entidades de direitos humanos.

Um capítulo a mais na guerra do Rio

Cinco décadas após surgir em uma prisão isolada no litoral fluminense, o Comando Vermelho segue sendo uma das principais forças do crime organizado na América Latina, com ramificações em outros estados e países vizinhos, como Paraguai e Bolívia.

A megaoperação no Alemão e na Penha é apenas mais um episódio da longa disputa entre o poder do tráfico e a autoridade do Estado, um conflito que, a cada nova ação, deixa um saldo devastador — e renova a pergunta que ecoa há décadas nas favelas do Rio: até quando a guerra será a única resposta?

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