Presídio de Ilha Grande — Foto: Reprodução/TV Globo
A megaoperação policial nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, reacendeu o debate sobre a violência e o poder das facções criminosas no estado. A ação, considerada uma das maiores da história fluminense, resultou em 121 mortes, sendo 117 suspeitos e quatro policiais, além de 113 prisões, 10 menores apreendidos e a apreensão de 118 armas — entre elas 91 fuzis — e mais de uma tonelada de drogas.
O alvo central das forças de segurança foi o Comando Vermelho (CV), a mais antiga e influente facção do tráfico de drogas no Brasil, com raízes que remontam ao sistema prisional da Ilha Grande nas décadas de 1970 e 1980.
Da prisão à facção: a gênese na Ilha Grande
O presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande — a cerca de 100 km da capital fluminense —, foi o berço do Comando Vermelho. O local, originalmente criado em 1963, tornou-se um ponto de convergência entre presos políticos da ditadura militar e criminosos comuns após o golpe de 1964.
No início dos anos 1970, o ambiente de opressão e superlotação levou à formação de alianças inesperadas. William da Silva Lima, conhecido como Professor, articulou a união entre os dois grupos sob uma espécie de pacto de sobrevivência e solidariedade dentro das muralhas do presídio.
Essa aliança deu origem à chamada Falange da LSN, em referência à Lei de Segurança Nacional — instrumento da repressão da época. Pouco tempo depois, o grupo passou a ser conhecido como Falange Vermelha, e posteriormente adotou o nome Comando Vermelho, em referência à cor associada à resistência e à ideologia revolucionária que inspirou parte dos presos políticos.
Relatórios penitenciários apontam que, a partir de 1979, a Falange Vermelha já exercia controle sobre o crime dentro do sistema prisional do Rio, organizando rebeliões, fugas e impondo uma espécie de “código de conduta” entre os detentos.
Do cárcere ao comando das favelas
A consolidação da facção fora dos muros ocorreu em 1980, quando uma fuga cinematográfica — que incluiu nomes como José Jorge Saldanha, o Zé Bigode — levou parte do grupo ao continente. A partir daí, o CV iniciou a ocupação de territórios nas favelas cariocas, financiando-se por meio do tráfico de drogas, assaltos e sequestros.
Entre os nomes mais emblemáticos da primeira geração da facção está José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, que ganhou notoriedade nacional ao fugir de helicóptero do presídio da Ilha Grande, em 1985 — episódio que simbolizou o avanço e a ousadia do grupo.
O presídio foi desativado e implodido em 1994, restando apenas ruínas, mas seu legado continua a influenciar a história da criminalidade no país.
O poder do Comando Vermelho e o desafio do Estado
Desde então, o Comando Vermelho tornou-se símbolo da expansão do crime organizado no Rio, dominando vastas áreas do território urbano e travando uma guerra contínua contra o Estado e facções rivais, como o Terceiro Comando Puro (TCP) e a Milícia.
A operação desta semana, que mobilizou centenas de agentes das polícias Civil, Militar e Federal, foi apresentada pelo governo fluminense como uma resposta direta à escalada de ataques e confrontos promovidos pelo CV nas últimas semanas.
Críticos, porém, apontam excessos, violações de direitos humanos e falta de transparência nas ações, o que já levou o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio do ministro Alexandre de Moraes, a determinar a preservação integral das provas e convocar uma audiência pública com entidades de direitos humanos.
Um capítulo a mais na guerra do Rio
Cinco décadas após surgir em uma prisão isolada no litoral fluminense, o Comando Vermelho segue sendo uma das principais forças do crime organizado na América Latina, com ramificações em outros estados e países vizinhos, como Paraguai e Bolívia.
A megaoperação no Alemão e na Penha é apenas mais um episódio da longa disputa entre o poder do tráfico e a autoridade do Estado, um conflito que, a cada nova ação, deixa um saldo devastador — e renova a pergunta que ecoa há décadas nas favelas do Rio: até quando a guerra será a única resposta?
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